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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

“Muita coisa ainda precisa acontecer para termos um crescimento mais vigoroso”

Denise Campos de Toledo participou da oitava edição do Seminário da Construção Civil. Em entrevista, ela fala sobre crescimento econômico

Jornalista, economista e escritora, Denise Campos de Toledo é hoje uma das maiores consultoras em Economia no Brasil. Durante sua participação na oitava edição do Seminário da Construção Civil, a especialista falou sobre o cenário macroeconômico nacional e, em entrevista a A Tribuna, explicou que acredita em um crescimento gradual da economia e que, para isto, o setor da construção precisa voltar a receber atenção do governo.

Nosso cenário econômico hoje não é tão ruim. Já há previsões de taxa Selic a 3.75% e a inflação está cada vez mais baixa. Qual o impacto disso na prática? Você acha que a economia vai deslanchar realmente?

Eu conto com um crescimento gradual da economia, porque muita coisa ainda precisa acontecer para termos um crescimento mais vigoroso. A combinação de juro baixo e inflação baixa já é boa, pois aumenta o poder de compra e a capacidade de consumo. As pessoas podem se endividar comprometendo menos a renda com os juros. E a inflação baixa permite um planejamento melhor. E só o fato de a inflação já estar baixa, quando você tem aumento salarial, isso permite uma recomposição de renda. Então isso é positivo, mas só teremos economia crescendo mesmo quando tiver uma redução mais forte do desemprego, que ainda é muito grande. Mesmo com melhoras pontuais, ainda há muita informalidade. A contratação formal ainda é pouco no universo de desempregados. Is<CW0>so pode mudar quando o Brasil tiver mais investimentos. O nível de investimentos hoje é de 16% do PIB e teria que chegara pelo menos a 20% para fazer diferença no dinamismo da economia. E isso pode acontecer com concessões, privatização, com a pressão de capital externo, com algumas ações também dos Estados. Conforme isso acontece, podemos ver algum crescimento, mas não vejo nada explosivo. Mas é um crescimento mais perceptível.

O desemprego incendiou a inadimplência, mas há muita falta de educação financeira. Você acha que o brasileiro aprendeu olhando os erros dos outros ou acha que na hora em que melhorar a economia, essa falta de educação financeira vai voltar? Qual a sua expectativa?

Eu acho que, no geral, o brasileiro não tem muita educação financeira. Ele não tem essa preocupação, ele tem o imediatismo do consumo. A gente tem um nível de poupança baixo no Brasil. As pessoas não planejam, por exemplo, a aposentadoria. Elas contam com a aposentadoria que vem do setor publico e com um suporte financeiro que pode ter com outros benefícios pagos pela própria Previdência. Há uma fatia enorme da população brasileira que não tem plano médico e fica na dependência do setor público, que tem uma precariedade enorme do serviço. Então precisa de uma nova cultura... Quando há liberação de (recursos do) Fundo de Garantia das contas inativas, por exemplo, você vê desempregado na fila que vai sacar o dinheiro para comprar uma TV... é complicado. A pessoa tem uma folguinha no orçamento e acaba se endividando. Nós tínhamos um nível de endividamento muito alto para o nível de emprego que nós tínhamos e, no final das contas, demos sorte de a inadimplência não explodir de fato.

A gente está tendo uma mudança muita rápida na economia com a ‘uberização’, que é reflexo do desemprego, mas que permite que as pessoas continuem trabalhando. Há mudanças nas empresas, trocando a forma de contratação de serviços, e até o mercado de seguros e setor bancário está agitado. Você acha que a tecnologia ainda vai mudar muita coisa na economia?

Eu acho que é uma fase de mudança mesmo e muito do que vemos hoje veio para ficar. Vemos Uber no mundo inteiro, tem uma série de novas profissões relacionadas à tecnologia que veio para ficar. Isso tem um nível de informalidade que vai fazer diferença inclusive no ritmo de recuperação do emprego formal no Brasil. Isso mudou. Novas condições de contratação também estão acontecendo, então precisamos ter um índice de crescimento bem robusto da economia, principalmente em áreas com mais contratação formal, como a indústria, para que tenha uma redução mesmo do desemprego, uma condição diferente. Mas esse processo todo faz parte da inovação da economia brasileira. Os setores (comércio, serviços) terão que incorporar novas tecnologias, aderir a serviços de entrega, abrindo oportunidades. Mas, nesse processo, muito emprego também será destruído. Por exemplo, a incorporação de tecnologia nos bancos, atendimento virtual, lojas online, que estão reduzindo o tamanho e estoque das lojas físicas. Cada vez mais as pessoas são empurradas a trabalhar com tecnologia e isso significa substituição de mão de obra, de loja física, mas em contrapartida aparece outra mão de obra. Com o desemprego que temos hoje no Brasil, imagina se não tivéssemos os aplicativos de entrega de mercadorias e de transporte. Seria ainda mais grave.

E a educação? Não vemos um esforço para melhorar o ensino básico e técnico. Ainda falta muito para avançarmos?

Eu acho que sim. A educação é uma das áreas do Governo que nos dá menos segurança. São pessoas sem experiência, com visões ideológicas da situação, deixando de lado avanços importantes que tivemos. E essa mudança toda pode comprometer o resultado que começávamos a alcançar. Tem iniciativas positivas dos Estados, que conseguiram garantir níveis satisfatórios de ensino e por aí que a coisa pode acontecer. Alguns estados assumiram a dianteira. Em São Paulo vemos isso. No Espírito Santo, por exemplo, eles conseguiram nível altíssimo, e no Ceará também. No Governo Federal, a equipe econômica está preocupada com qualificação profissional, querem inclusive utilizar parte dos recursos do Sistema S para capacitação profissional. Isso é importante para que as pessoas tenham empregabilidade, capacitação para conseguir emprego.

E qual sua expectativa para a construção civil? 

O setor da construção é muito importante para a economia do País e o crédito é importante para o setor da construção. Então a redução dos juros que estamos vendo é positiva. Financiamentos corrigidos pela inflação ainda é um teste, vamos ver se vai dar certo ao longo do tempo. Vamos ver também se a inflação permanece baixa mesmo e não cria problemas mais a frente para quem assumir financiamentos desse tipo. Agora é preciso tomar cuidado com a forma com que o Governo vai lidar com o (programa habitacional) Minha Casa Minha Vida, que é responsável hoje por grande parte da recuperação do setor. Tem uma fatia enorme da população que só tem condição de comprar imóvel através desse sistema, que precisa de um crédito subsidiado, e isso já sofre atrasos desde o começo do ano. Muitas vezes, o Governo coloca o Minha Casa Minha Vida como um dos programas que pode sofrer cortes, então isso vai pesar no setor da construção em boa parte. Claro que trabalho e a recuperação da economia aumentam a compra de imóveis, pois as pessoas recuperam poder de compra e capacidade de assumir financiamentos, no caso da classe média. Mas a população mais pobre depende do Minha Casa Minha Vida e o setor da construção deu um espaço enorme para isso. Muitos lançamentos são focados nisso, então é um ponto que o Governo deveria olhar com atenção, pois isso poderia trazer muito retorno não só para o setor da construção, mas diminuir a carência habitacional e, em termos de atividade, melhorar a geração de empregos. Quando está bom, o setor da construção gera muito emprego e muito dinamismo na economia, há toda uma cadeia de fornecedores que sofre esse efeito colateral positivo. Acho que o Governo deveria olhar com mais atenção para o setor da construção.

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