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Terça-feira

12 de Novembro de 2019

Projeto Time to Learn: sempre é tempo para aprender em Cubatão

Voluntária ensina inglês a alunos carentes

O pequeno Davi Nascimento, de 8 anos, jamais imaginou que juntando letrinhas em um tabuleiro de madeira poderia dar os primeiros passos no idioma do poeta e dramaturgo William Shakespeare (1564-1616). “I am the champion (Sou o vencedor)”, disse, timidamnente, o garoto, ao terminar o desafio do dia.

A expressão envergonhada do menino, morador no Parque São Luiz, em Cubatão, logo se transformou em entusiasmo e euforia. A razão foi o incentivo que recebeu pela pronúncia, feito por sua tutora, a gestora comercial Andrea Leal, de 36 anos. Ela é a idealizadora e voluntária do projeto Time to Learn (Tempo para Aprender, em livre tradução), que leva os primeiros passos do inglês a crianças e jovens de comunidades carentes da Cidade. 

Cerca de 140 alunos dos bolsões e da Vila dos Pescadores são atendidos. Os planos são chegar ao Fabril e à Vila São José nos próximos meses. 

Misturando ações lúdicas e aulas tradicionais, Andrea quebra a primeira barreira para que as crianças aprendam a falar e a escrever em inglês.

A história dela é a base de tudo. Filha de migrantes nordestinos, conta que a família passou dificuldades em seus primeiros anos em Cubatão. Sobretudo, devido à falta de qualificação de seus pais. As poucas oportunidades que os seus pais obtiveram permitiam apenas o aluguel de um barraco erguido sobre palafitas, em uma região de mangue. 

A situação financeira começou a melhorar quando o pai de Andrea fez cursos profissionalizantes.

“Meu pai me ensinou o valor do estudo. É isso que busco ensinar”, diz. Com apoio da família e seu baixo salário numa rede de lanches, conseguiu se formar em Comércio Exterior. 

Ela recebeu de um professor o conselho que mudaria sua vida. “Ele me disse que, sem inglês, minhas chances na profissão seriam poucas. Resolvi morar na Irlanda, onde fiquei por dois anos e meio.” Na volta, além da fluência no idioma, Andrea trouxe a vontade de plantar sementes. “Era minha vez de contribuir para o mundo.” 

Misturadas, brincadeiras e aulas tradicionais levam conhecimento (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

Em contêiner

Sem nenhum centavo próprio nem incentivo externo, Andrea pensou que a ideia morreria sem ao menos sair do papel. “Um amigo me disse que, para ensinar, bastaria apenas a sombra de uma árvore. Percebi que eu precisava começar.” Assim, tendo apenas o desejo de ajudar as futuras gerações e muita força de vontade, ela conseguiu espaço em um contêiner adaptado na Vila dos Pescadores.

Naquele espaço apertado e abafado, o projeto deu os primeiros passos. As temperaturas dentro do recipiente de metal durante o verão tornavam impraticáveis qualquer método educacional. As aulas foram transferidas para outro lugar. 

“Quando voltamos (para o contêiner), ele estava invadido por ratos, que destruíram o piso. Pensei que o projeto estava arruinado”, conta. 

A proposta se manteve graças às portas abertas pela ONG Exército de Salvação, que cedeu uma sala para que os encontros semanais fossem mantidos. 

As dificuldades são superadas pela determinação de Andrea. E, assim, ela consegue fazer a diferença na vida de jovens de 5 a 14 anos, muitos sem condições financeiras de arcar com um curso de idiomas.

“Eu me sinto muito feliz de abrir as portas do centro comunitário. A única parte triste é quando acaba a aula”, diz o líder comunitário do Conjunto Rubens Lara, Fernando Dias Costa.

Andrea, filha de migrantes nordestinos, aprendeu a valorizar estudo (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

 

Na turma, brincadeiras e respeito

“Acaba a aula, a gente não quer ir embora. A vontade é ficar e aprender mais”, diz Ana Luísa Silva Nascimento, de 12 anos. Para ela, é mais fácil aprender inglês no projeto do que na escola. “Aqui é divertido. A gente aprende brincando.”

As brincadeiras são jogos pedagógicos em inglês, como quebra-cabeças e caça-palavras. 

Ana e Davi, irmãos, frequentam projeto (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

O amor e o respeito mútuos estão entre os lemas das aulas. “Tirar as crianças de casa numa tarde ensolarada e ensinar algo novo, que vai mudar a vida delas, é algo gratificante”, considera Andrea Leal. 

As ferramentas pedagógicas são aprovadas pela pequena Sofia César Costa, de 10 anos. No sábado passado, a garota teve a primeira aula no projeto.

“Gostei muito. Nem parecia que estava estudando. Aprendi hoje o nome de vários animais. Sei que wolf é lobo, que dog é cachorro”, relaciona. 

Sofia gostou da primeira aula (Foto: Vanessa Rodrigues/AT


Projeto se expande e mira requalificação profissional

O projeto Time to Learn está se ampliando. No final do mês, formam-se os primeiros 30 alunos no curso de requalificação profissional para operador de empilhadeira, aberto em conjunto com o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea), a Associação dos Engenheiros de Cubatão e a Lacerda Assessoria e Treinamentos.

Como as inscrições se encerraram em menos de cinco horas, Andrea planeja novas turmas também em outros cursos de extensão nas áreas de logística e comércio exterior. 

“São formações rápidas e voltadas a atender demandas grandes em nossa região”, diz. Haverá certi-ficação e aula prática em um terminal portuário. 

Andrea afirma que o objetivo da ação é promover capacitação e desenvolvimento para elevar a chance de ingresso mo mercado de trabalho. 

Ao comentar por que se empenha para manter o projeto vivo, alega ser uma forma de retribuir as oportunidades que teve. “É preciso pensar no coletivo, num futuro melhor. Acredito que as ações individuais geram enormes efeitos.”

Perfil

Projeto Time to Learn

O que é?

Ação de incentivo ao estudo da língua inglesa voltada para crianças e adolescentes de 5 a 14 anos de núcleos periféricos de Cubatão. 

Onde? 

Rua João Veiga, Parque São Luiz, Cubatão. 

Site

https://www.facebook.com/Projeto-Time-to-Learn-454935571707966

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