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Terça-feira

22 de Outubro de 2019

Projeto Ouse leva carinho e abraços a adolescentes em escolas de Cubatão

Voluntários trabalham com objetivo de auxiliar no processo de superar a depressão

Imagine um filme de toda a sua vida. Entre as cenas, momentos tristes e felizes que, invariavelmente, deixaram marcas. Algumas lembranças são boas, mas há, também, as ruins, que ficaram escondidas ou insistem em machucar diariamente. São essas feridas que integrantes do projeto Ouse tentam curar. E, para isso, o remédio é uma grande dose de carinho, e a principal terapia, o abraço. 

O grupo é formado por cerca de 60 voluntários, que se dividem para conversar, principalmente, com adolescentes de Cubatão. Eles vão até escolas de ensinos Fundamental e Médio com um único objetivo: combater a depressão e o suicídio. 

Para isso, nada melhor do que usar a própria experiência para ajudar o próximo. É o caso do fisioterapeuta Gabriel de Souza Lima, de 25 anos, que teve depressão há cerca de quatro anos. 

"Eu fui curado e percebi que tinha que fazer alguma coisa para ajudar outras pessoas. Das minhas feridas saiu o poder para ajudar. Hoje, o projeto Ouse existe para reunir pessoas e levar paz e amor para quem precisa”, destacou o voluntário. 

Gabriel sentiu na pele o que é estar doente e ter o problema subestimado pela sociedade. Falta de ânimo, de vontade de viver, de apetite e até de sair de casa eram alguns de seus sintomas. 

“Só queria me isolar, emagreci muito, e esses sintomas foram se agravando até que eu procurei ajuda. Mas, até procurar, foi um trabalho incrível porque a sociedade tem esse tabu de que a depressão é frescura, falta de trabalho ou de Deus”, contou.

Hoje, ele trabalha conscientizando jovens para que eles passem a olhar com mais carinho para as suas próprias emoções e carências. Falta de atenção e carinho dos pais, bullying e autoestima estão entre os temas abordados durante as dinâmicas nas escolas. 

“No começo, nós oferecíamos o projeto. Hoje, ele é mais conhecido na Baixada e, também, em São Paulo. Então, agora, as escolas nos convidam e, no Setembro Amarelo, nossas agendas lotaram”, contou. 

Dinâmicas

Nas escolas, os voluntários do projeto Ouse mobilizam os adolescentes com dinâmicas. A principal delas estimula a demonstração de sentimentos. “Eles precisam ouvir que são importantes, amados e têm um projeto de vida.” 

É comum que, depois de ouvir palavras de carinho, os adolescentes se emocionem e caiam em prantos. Segundo os voluntários, isso acontece porque, muitas vezes, há falta de carinho e atenção em casa. 

“O caso mais tocante foi em Águas de Lindoia, onde, durante a palestra, a aluna parou e levantou a mão e disse: ‘Me pega no colo como os meus pais e a minha família nunca fizeram antes?’. Ela se derramava em lágrimas. A equipe toda ficou paralisada porque o aluno estava simplesmente pedindo um colo”, contou Gabriel. 

Terapia do abraço

Também há outras formas de tocar o coração dos jovens. “A ideia é trazer aquelas memórias de tudo que já passou como uma retrospectiva. Nesse processo, vêm memórias que a pessoa não queria relembrar. E, muitas vezes, é aí que estão as feridas.”

De olhos fechados, os estudantes são indagados se querem um abraço. Basta levantar o braço, e um dos voluntários vai ao encontro do adolescente. O que parece simples conforta e emociona a todos.

“É comprovado cientificamente que um abraço que dura mais de 15 segundos libera o hormônio da alegria e do prazer. É algo incrível e que dá muito resultado. Vale muito a pena”, afirmou Gabriel.

A principal dinâmica com o público é a demonstração de sentimentos (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Ao levar conforto, voluntários se sentem aliviados

“A gente chega às escolas e acha que vai abraçar e trazer algum alívio para as pessoas. Mas, na verdade, a gente vê que nós é que somos aliviados e entendemos o nosso propósito de vida, que vale a pena viver e temos um lugar para chegar.” A constatação é da voluntária Mariane Lu Araújo dos Santos, que faz parte do projeto Ouse há um ano. 

Engenheira química, ela deixou sua área de formação e se tornou microempreendedora. Com algumas horas vagas durante o dia, Mariane consegue se dedicar ao voluntariado e declara que a atividade recupera suas energias.

“Um ano depois, eu sou outra pessoa, por entender e saber que as pessoas precisam uma das outras. Mudou a minha forma de olhar para o próximo, para o outro. Eu achava que depressão era frescura e passei a entender que eles precisam de atenção, de ser olhados nos olhos e ser amados”, afirmou.

Mariane: “Vale a pena viver” (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Abraço que muda

A mesma opinião tem o fisioterapeuta Gabriel de Souza Lima, que não pretende deixar de conscientizar adolescentes sobre a valorização da vida. “Já me pararam na rua para dizer que aquele meu abraço mudou a vida da pessoa. Às vezes, eles precisam só de um abraço para mudar. Eu também não sou mais a mesma pessoa. Isso é muito gratificante. É incrível.” 
Independentemente da formação ou do estilo de vida, os voluntários acreditam que marcas na vida dos adolescentes. “A gente passa pouco tempo, mas o que importa é que corações são alcançados e eles vão viver tudo que há para viver”, afirmou Mariane.

Gabriel: “Não sou mais o mesmo” (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Portas abertas para ouvir e aconselhar

Para a diretora da Escola Estadual Afonso Schmidt, Odete Pereira, os adolescentes precisam saber que a instituição está de portas abertas para ouvi-los e aconselhá-los. Com essa relação de confiança entre alunos, professores e funcionários, o ambiente se torma mais saudável. 

“Essa forma de acolher e mostrar que existem caminhos é fundamental. Eles precisam saber que podem contar com outras pessoas e procurar ajuda. Saber, também, que a vida é o bem maior. Os problemas existem, e a gente tem que encontrar meios de superar”, comentou. 

A diretora apontou que as visitas do projeto Ouse têm um gosto ainda mais especial. Motivo: o fisioterapeuta Gabriel de Souza Lima, um dos voluntários, é ex-aluno da escola. Na semana passada, ele voltou à instituição onde estudou há mais de dez anos para conversar com os adolescentes. O objetivo é o combate ao suicídio.

Alunos dos ensinos Fundamental e Médio assistiram às palestras. Para professores, após ouvir as experiências dos voluntários, os estudantes podem se tornar multiplicadores e ajudar os colegas.

“Falar é fundamental. É importante poder encontrar esse apoio no outro. Escola é esse ambiente de fazer essa interação e acolher”, destacou a diretora. 

Esta é mais uma das ações desenvolvidas para prevenir doenças emocionais. “Existem líderes, grêmio estudantil, onde procuramos fazer reunião. Eles falam, dividem e nos ajudam a encontrar soluções e caminhos para todos os problemas”, afirmou Odete. 

Relação de confiança, cita Odete (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Perfil

Projeto Ouse

O que é?

Um grupo de 60 voluntários vai a escolas, faculdades e instituições religiosas para falar com jovens sobre depressão e prevenção ao suicídio. A ideia é mostrar que a doença tem cura e vale a pena viver.

Onde?

Em Cubatão

Contato?

Pelo telefone (13) 98880-9445 ou pelo e-mail biel.sousa.lima@hotmail.com

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