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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Nas batidas da música, o poder de transformação

Projeto Musicalidade na Gota, em Santos, muda vida de crianças e adolescentes da região

Entre notas e ritmos, o projeto Musicalidade na Gota, realizado há três anos pela Gota de Leite, em Santos, tem foco na música, mas vai além. Atende crianças e jovens gratuitamente, fazendo com que encontrem não só o compasso das melodias aprendidas nas aulas, mas também a batida perfeita na vida.  

Nele, são oferecidas aulas de violão e percussão no contraturno escolar. As vagas são abertas para crianças e jovens de 8 a 17 anos. São 40 chances para cada modalidade, somando quase 100 oportunidades à disposição. 

“A ideia era oferecer atividades no contraturno escolar, mas já tínhamos um projeto voltado para o esporte e queríamos ter algo que incentivasse a cultura. Por isso, chegamos a essas aulas”, explica uma das coordenadoras da Gota de Leite, Adriana Tavares Oliveira.  

Segundo ela, porém, os aprendizados são muitos e impactam não apenas os alunos, mas as famílias deles, que passam a valorizar e buscar por mais cultura. 

O lado bom da vida  

Ana Beatriz de Melo Silva, de 11 anos, frequenta o projeto há pouco mais de três meses. Está tirando as primeiras notas do violão ao mesmo tempo em que amplia seu repertório cultural.  

“Eu nunca tinha entrado em um teatro e fiz apresentação no Guarany”, diz, orgulhosa. Ela chegou ao Musicalidade na Gota de tanto ouvir a amiga Giovanna falar do projeto. “Como eu ficava em casa à tarde, vim pra cá. E foi ótimo para não ficar sem fazer nada”.  

A amiga de Ana Beatriz, Giovanna Emannuele dos Santos Costa, de 11 anos, está há dois anos no projeto. Ela sonha em ser cantora e saber tocar violão é uma forma de incrementar a futura e desejada carreira.  

Ainda que tenham expectativas diferentes em relação às aulas de violão, Ana Beatriz e Giovanna desenvolvem habilidades que usarão em diferentes momentos da vida. Segundo Thiago Moura de Oliveira, professor de violão, como eles tocam juntos, aprendem a trabalhar em grupo, ter disciplina e persistência e exercitar a coordenação motora e a atenção.  

“Crianças que tinham problemas com indisciplina conseguiram melhorar ao longo do ano. Temos esse feedback dos pais e até da escola. É claro que nós, professores, incentivamos e orientamos, mas essa consciência acontece muitas vezes de forma orgânica com a música”. 

O professor italiano Mikele ficou maravilhado com a batida da percussão e não deixou mais o Brasil (Foto: Vanessa Rodrigues/ AT)  

A prova 

Miguel Holovate Mariano, de 10 anos, faz aulas de violão e percussão e conta que abraçou o projeto para ter mais concentração nas aulas. “Eu vim porque, quando reparava, estava com a cabeça longe”, admite o garoto, que garante ter melhorado bastante com ajuda da música e do projeto. 

Preocupação constante com novos horizontes 

O professor Thiago Moura de Oliveira também conta que outra preocupação é mostrar novos horizontes aos alunos. “Além de didática, queremos apresentar uma diversidade de repertório, tanto no que diz respeito aos ritmos brasileiros quanto inseri-los num contexto mundial”.  

Por isso, trabalham bastante com ritmos do Nordeste e MPB. E para dialogar com os jovens, não abrem mão de músicas que estão em séries e filmes. O sucesso do filme que mostrou a história da banda Queen, por exemplo, foi o gancho para que fossem apresentados os clássicos do rock aos alunos.  

“Eles são de uma geração digital. Aqui, é um momento de voltar às raízes. Muitos chegam aqui sem referências. Acredito que hoje a música pop é tão digital e eletrônica que eles não veem os instrumentos. Visitamos um estúdio e muitos nunca tinham visto a maior parte dos instrumentos. O projeto é importante para aumentar o repertório cultural deles”. 

Percussão encanta os mais jovens 

Matheus Galvão Andrade tem 9 anos e confessa que não sabia muito bem o que era percussão quando foi incentivado pela mãe a se inscrever no Musicalidade na Gota. A verdade, no entanto, é que ela acertou em cheio. “Eu me apaixonei pelas aulas. Quando estou tocando, eu sinto uma energia muito boa”. 

João Guilherme de Souza Dias, de 14 anos, também destaca a empolgação nas aulas de percussão. Mas segundo ele, outras questões que o motivam são a mistura cultural e a possibilidade de criação nas aulas. 

Temas, por sinal, muito importantes para o professor Mikele Pasini. Italiano, Mikele já era músico e apaixonado por percussão antes de chegar ao Brasil. Veio para cá com o sonho de tocar na bateria de uma escola de samba. Realizou o sonho durante um desfile no Rio de Janeiro e não voltou mais para sua terra natal. 

Apesar de ter estudado outros instrumentos, ele conta que, quando sentiu o som do tambor, se encontrou. “Ao chegar no Brasil, me surpreendi ao ver que os músicos percussionistas, às vezes, sofriam preconceito. Trago para a aula essa valorização da percussão e cultura popular. Além da exigência de leitura de partitura e estudo, porque o percussionista é um músico”, explica Mikele, que já esteve na África para aprofundar seus estudos.  

Thiago fica atento ao que está em evidência para as aulas (Foto: Vanessa Rodrigues/ AT)

Perfil  

Musicalidade na Gota 

O que é?  

Aulas gratuitas de violão e percussão para crianças a partir dos 8 anos até adolescentes de 17. São 40 vagas para cada modalidade. O objetivo é, além de oferecer uma atividade no contraturno escolar, incentivar e ampliar o repertório cultural dos jovens. 

Onde é? 

Gota de Leite, na Av. Conselheiro Nébias, 388, Encruzilhada, em Santos. Telefone 3202-0220. 

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