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Segunda-feira

18 de Novembro de 2019

Micropigmentação faz resgate de autoestima em pacientes com câncer de mama

Especialista em micropigmentação faz tatuagem cosmética em mamas de mulheres que tiveram câncer e foram atendidas pelo SUS

Para algumas mulheres, enfrentar o diagnóstico de câncer é se descobrir lutando pela vida e, ao mesmo tempo, travar uma batalha com o espelho na tentativa de manter a autoestima. E foi por meio da própria profissão que a especialista em micropigmentação Regiane Lapetina percebeu que poderia ajudá-las. 

O projeto Amigos do Peito oferece tatuagem cosmética gratuita para redesenho de aréolas de mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) que passaram por mastectomia – retirada da mama – ou das sobrancelhas que caem com a quimioterapia. 

Redesenhar as marcas no corpo decorrentes do tratamento é também uma forma de dar novo significado às cicatrizes que a doença deixa na alma.

Regine trabalha com micropigmentação, que consiste em implantar tinta na pele e desenhar, delinear, sombrear ou preencher. No desenho da aréola, ela explica que muitas mulheres que passam pela mastectomia implantam mama com silicone, mas nem sempre é a última etapa. 

Normalmente, na mastectomia, o mamilo e a aréola são distorcidos ou retirados e necessitam de reparação. “Às vezes, acontece rejeição ou não é possível deixar como a mulher quer. Então, a micropigmetação pode auxiliar. Com a técnica, é possível dar cor, forma e profundidade, com um resultado bem realista”, conta ela, que também dá cursos e conta com a ajuda de suas alunas no projeto.

Micropigmentação da aréola é feita com material e tintas específicos (Alexsander Ferraz/AT)

Começo

: Regiane: cor, forma e profundidade com “resultado bem realista” (Foto: Alexsander Ferraz/ AT)

Em 2013, Regiane fez especializações na área e passou a oferecer micropig-mentação da aréola. Quando a primeira cliente marcada para o procedimento chegou, ela explicou cada detalhe do processo. 

“Os olhos dela brilhavam. Mas, quando falei o preço, o rosto dela mudou. Não é um procedimento barato, até porque, além de material, tintas específicas, envolve técnicas que aprendemos fora do País”.

Mas a decepção fez Regiane reavaliar seus planos. Ela decidiu que passaria a fazer o procedimento de forma gratuita para mulheres atendidas pelo SUS. “Eu só peço que elas tragam uma declaração do médico liberando para o procedimento.”

Fazer o trabalho vai muito além de técnica. Regiane, primeiro, conversa com as mulheres e as ouve. “Eu preciso desse sentimento para conseguir atender as expectativas que elas têm”.

 

Experiência

Os atendimentos são realizados no salão de Regiane, em Santos. Segundo a especialista, ver a força e a vontade de viver das suas clientes é um combustível para ela mesma.

“Tudo ficou ainda mais intenso porque vivenciei a luta contra o câncer com a minha mãe. O dela não foi de mama, mas vimos a batalha e entendemos o quanto as mulheres que chegam aqui lutaram e são vitoriosas”, afirma.

 

“Gostar de se ver é maravilhoso”

Valéria Lopes relata o que passou após cirurgia e colocação de prótese (Foto: Alexsander Ferraz/ AT)

Valéria Alonso Vilalva Lopes, 46 anos, conta que há um ano e cinco meses foi para a cirurgia. Após o diagnóstico, ela passou pela remoção de parte da mama, a retirada do quadrante. 
“Meu medo era retirar a aréola e o mamilo. Mas isso não aconteceu. Como eu tinha a mama muito pequena, coloquei uma prótese e deu certo”, relembra ela.

No entanto, com o passar do tempo, Valéria conta que a aréola ficou disforme e chora ao lembrar quando conseguiu marcar a micropigmentação no projeto Amigos do Peito. 

“É um choro de alívio, de gratidão pela oportunidade. Porque é um recomeço, e poder se olhar no espelho e gostar de se ver é maravilhoso. Não é para ninguém, é para si mesma”, emociona-se.

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