EDIÇÃO DIGITAL

Quarta-feira

11 de Dezembro de 2019

Esporte indica caminhos para a vida

Grupo Amigo do Lar Pobre oferece atividades

Na Vila Nova, em Santos, o projeto Clínica de Esportes promove o lazer e o aprendizado gratuitamente para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa é na sede do Grupo Amigo do Lar Pobre (Galp), que atende jovens de 6 a 15 anos. 

São realizadas duas aulas de futebol por semana para 38 jovens. Além da quadra na sede do grupo, na Rua Silva Jardim, 21, também são usadas instalações da Vila Criativa, da Vila Nova (Praça Rui Ribeiro Couto, s/nº). 

No projeto, além de se divertir, os jovens aprendem a importância de valores como respeito, responsabilidade e disciplina. Quem comanda as atividades é o voluntário Sérgio Martins, de 80 anos. Com muita disposição, ele fala das histórias de seus alunos e ex-alunos com um sorriso no rosto e lembra que tudo começou em Caruara, na Área Continental. 

“Eu era voluntário de uma escolinha do Santos (F.C.). Em 2006, me pediram: ‘Sérgio, vem para Caruara, os meninos precisam’, e então iniciamos o trabalho”. Em 2015, Sérgio decidiu abrir uma unidade na área insular, no Educandário Anália Franco, que depois se tornaria a única. 

Fundamentos 

Outro voluntário, que ajuda Sérgio nas aulas, é Antonio Barbosa, de 74 anos. Ele dá treinos mais táticos e técnicos, além de passar aos rapazes um pouco de sua experiência nas categorias de base do Santos, onde supervisionou a equipe sub-15 de 2005 a 2010, e como ex-árbitro profissional de futebol. 

“Ensino pra molecada os fundamentos, porque não adianta você querer jogar sem saber bater de chapa, chutar e cruzar. A parte mais tática eu ensino e também passo para eles a experiência que tive no Santos”. 

Barbosa observa que suas orientações ajudam a elevar a qualidade dos meninos no futebol, mas pontua que o foco principal é a diversão. “Os meninos estão aqui para brincar, pela educação e pra curtirem a infância. Ser jogador é outra coisa, mas, às vezes, aparece um ou outro com potencial e não custa nada ensiná-lo”. 

GALP 

Fundado em 1965, é um centro de convivência que busca prover oportunidades de aprendizado extra-escolar para jovens em situação de vulnerabilidade social.  

Os mais velhos vão para a instituição de manhã, tomam café, banho e almoço antes de irem para a escola. As crianças comparecem após as aulas e jantam antes de voltar para casa.  

“Todos têm reforço individualizado, de acordo com a necessidade de cada um. Também tem aulas de informática, música, rodas de conversa, contação de histórias e esportes”, explica Júlia Costa Ozores, assistente social voluntária. 

James (à esquerda) e Keyver: sonhos se confundem com desejo de vida melhor (Foto: Carlos Nogueira/ AT)

Importância 

A presidente Juliana Costa Gonzalez ressalta a importância do projeto para o grupo atendido.  

“Tira o foco de onde eles vivem, da situação de risco. A gente dá o recurso e o apoio psicológico para que se sintam amados e tenham senso de responsabilidade. É para eles verem que podem ser diferentes do que aquilo que estão acostumados a ver no dia a dia, diferentes da realidade em que vivem hoje”. 

Situação Difícil 

Nascido em Guaxupé (MG), Sérgio Martins tem orgulho de falar que é de origem ‘caipira’, apesar de ter vindo para Santos com a família em 1944. Ele lembra que, assim como os meninos que atende hoje, enfrentou anos difíceis. “Quando era pequeno, meu pai comprava amendoins para ir comigo e meu irmão vender na Vila Belmiro em dia de jogos. Crescendo, sempre teve alguém que nos deu uma ajuda, porque condições financeiras não tínhamos. Eu só fiz faculdade porque me ajudaram”, relata. 

Sérgio jogou futebol até os 20 anos, quando parou por causa de uma lesão no joelho. Depois de se formar em Economia, trabalhou por anos como corretor de valores. O trabalho voluntário começou há 18 anos em outros projetos, quando decidiu dar ao próximo o auxílio que sempre recebeu. “Tenho 80 anos, vou fazer o quê? Vou ficar na minha casa? Prefiro fazer trabalho voluntário porque isso me dá vida. Tenho saúde então estou retribuindo o que recebi a vida toda”. 

Jovens têm no projeto um porto seguro 

“Estou há oito anos no projeto. Fiquei sabendo por causa de amigos que eram daqui e depois entrei”, conta James Nascimento, de 15 anos. Morador da Vila Nova, ele era um jovem que gostava de jogar futebol nas ruas, fora de casa, o tempo todo, se pudesse. Quando entrou para o Galp e a Clínica de Esportes, encontrou uma maneira de continuar fazendo o que gosta e aprender. Hoje, tem o sonho de ser atleta profissional mas também sabe da importância de estudar. 

“O mais importante é o aprendizado. Tem que se esforçar pra aprender e focar nos estudos. No futebol ou em qualquer coisa tem que ter estudo, fazer uma faculdade pelo menos, ou não tem como”, diz James, que pretende cursar Educação Física. 

Outro rapaz de olho no futuro é Keyver Vinícius, de 15 anos, do Quarentenário, em São Vicente. No projeto, ele encontrou um lugar que o transformou. 

“Aqui pra mim é como uma segunda casa, quando cheguei fui muito bem acolhido. Antes, tinha vez que eu fugia de casa para ir jogar futebol, mas depois que conheci o Galp minha vida mudou e fiquei mais obediente”. 

Mesmo ainda novo Keyver já tem 1,90m de altura e pretende usar isso para trilhar seu caminho. “Quero servir à Marinha. Se não funcionar, minha segunda opção é ser goleiro. Mas, primeiro tenho que focar nos estudos e fazer uma faculdade ótima”, explica o jovem, que prefere as Ciências Exatas e pretende entrar para um curso de Engenharia. 

Perfil 

Clínica de Esportes 

O que é? 

Aulas gratuitas de futebol para crianças e adolescentes de 6 a 15 anos atendidos pelo Grupo Amigo 

do Lar Pobre (Galp). São feitas brincadeiras com bola com os mais novos e treinamentos técnicos aos mais velhos. Também se passam valores como responsabilidade e disciplina. 

Onde é? 

Sede do Galp, na Rua Silva Jardim, 21, Vila Nova, Santos. Telefones (13) 3222-5420 e 98233-2142. 

Tudo sobre: