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Quinta-feira

19 de Setembro de 2019

Caiçara Expedições: Preservar história e cultura é natural

Agência leva visitantes a comunidades, e turismo as enriquece

A agência Caiçara Expedições tem um leque de roteiros para quem deseja passear, mas uma proposta diferente. A ideia é guiar os olhares para além de monumentos e paisagens e incentivar um mergulho na cultura das pessoas. Com isso, o objetivo é gerar renda para comunidades locais, valorizando e preservando o saber popular.  

Assim, o projeto Circuito de Turismo Comunitário tem como principal proposta preservar as tradições locais ao fomentar a visitação turística. Um círculo generoso que enriquece quem visita e quem é visitado.  

É por isso que Renato Marchesini, um dos responsáveis pela Caiçara, leva como mantra a frase “os lugares são as pessoas”. Assim, vai procurando gente nas Cotas, em Cubatão; na Ilha Diana, no Caruara, ou no São Manoel, em Santos; ou nas comunidades afro São Roque e Caboclo Tupinambá, em Bertioga, por exemplo.  

Uma folha? Não, um inseto, exemplo da riqueza da Mata Atlântica (Foto: Irandy Ribas/ AT)

Em cada lugar, a ideia da Caiçara é integrar as próprias comunidades aos roteiros turísticos. “O turismo comunitário vem com essa proposta de as comunidades trabalharem seus conhecimentos. Desta forma, eles participam sendo monitores nos passeios, contando histórias, vendendo artesanato ou preparando a culinária local. Tudo integrado com as nossas ações.”  

Com isso, eles têm a oportunidade de gerar renda e resgatam história, cultura e autoestima das localidades. “Se você preserva a comunidade, a comunidade preserva o local.”  

Família  

A família de Jackson Rafael Graciano de Oliveira, de 24 anos, saiu do Paraná quando o pai recebeu a proposta de ser caseiro em uma propriedade à margem da Rodovia Rio-Santos, na Área Continental de Santos. Ali, ele descobriu uma verdadeira riqueza natural e oportunidades, apesar da distância dos centros urbanos.  

“Os lugares são as pessoas”, pensa Marchesini, da Caiçara Expedições (Foto: Irandy Ribas/ AT)

A casa da família fica na entrada da Fazenda Cabuçu. O lugar é uma referência histórica na Baixada Santista, pois, no período da colonização, serviu de abrigo para a Companhia de Jesus, que, ali, montou um posto de catequese para os índios.  

Já na primeira metade do século passado, a região virou um grande bananal, cuja produção era transportada por vagonetes até as proximidades do Rio Cabuçu, seguindo de barco até o Mercado Municipal de Santos.  

Os trilhos dos vagões já não estão mais lá, mas toda a história é mantida viva. E, mais do que isso, um bom pedaço de Mata Atlântica, preservado com ajuda da família de Rafael e do turismo consciente da Caiçara.  

Eliandra, Rafael e Débora: os Graciano de Oliveira vivem o ambiente (Foto: Irandy Ribas/ AT)

“Eu faço cursos e estudo fora. Não é sempre que estou aqui. Mas este virou um lugar de paz. Só quando saí percebi isso. É importante que as outras pessoas conheçam e nos ajudem a preservar, como faz meu irmão”, afirma Débora Graciano de Oliveira, irmã de Rafael.  

Ele conta que seu irmão mais velho começou a trabalhar como monitor na Caiçara. Anos depois, após o irmão casar e se mudar dali, foi a vez dele.  

“Para mim, é superimportante essa oportunidade. Além de gerar renda, é uma maneira que tenho de explicar o trabalho de preservação e da nossa cultura”, conta ele, que afirma querer seguir carreira no Turismo.  

“Nossa vida é esta floresta, e poder dividir o conhecimento e as belezas, além de uma oportunidade, é muito bom”, afirma a matriarca da família, Eliandra da Silva Graciano. 

Experiências são aprendizado e fazem parte das lembranças 

Assim, além das fotos e da lembrança do banho de cachoeira, os turistas voltam para casa com muito aprendizado. 

“Para mim, foi uma surpresa essa experiência na natureza integrada com o olhar da comunidade e da preservação. A gente percebe que é possível essa união”, explica Rita Cruz, educadora social, que fez a trilha Cabuçu.  

“Eu adorei. Estar na natureza, neste momento de destruição natural, ver um rio limpinho foi lindo. Mas vivenciar a sabedoria do Renato, do Rafael e o carinho com que eles nos recebem foi maravilhoso”, diz Clarissa Borges, mobilizadora comunitária, que também fez a trilha.  

Em meio a um lugar com ar fresco, um rio limpo para se refrescar (Foto: Irandy Ribas/ AT)

Roteiros oferecem conhecimento 

A Fazenda Cabuçu é um dos roteiros da Caiçara. Além da história, o local oferece um caminho em meio à variedade de plantas nativas e da fauna. Os grupos que percorrem a trilha mergulham em uma floresta e em dicas e informações que saem em tom apaixonado, tanto por parte de Renato quanto de Rafael.  

Os visitantes podem se encantar com bromélias e samambaias, uma variedade de pássaros como o guaxe e seus ninhos elaborados em forma de saco. E também podem se assustar com as histórias de Rafael.  

“Eu já vi onça aqui. Várias vezes. Não é a pintada, mas a negra. Uma vez, estava de bicicleta na estrada e tinha uma com filhote. Acho que por isso, pelo instinto de proteção, ela veio para meu lado. Eu nunca pedalei tão rápido na estrada”, conta o rapaz, deixando o grupo apreensivo.  

O conhecimento de Rafael é afetivo. Quando lhe perguntam quantos anos ele dá para uma determinada palmeira no caminho, ele tem a resposta na ponta da língua: “Quando eu cheguei aqui, ela já estava... Tem uns 17 anos”, diz, com a sabedoria de quem respira o lugar.  

“Eles são os guardiões da floresta, assim como as outras comunidades são os protetores dos saberes dos locais”, afirma Renato. 

Respeito 

A cada passo na trilha, juntamente às informações sobre as espécies, a Caiçara Expedições fala sobre preservação ambiental. Para Renato, é importante unir vivência e informação. Segundo ele, ninguém preserva o que não conhece. 

Para Rafael, orgulho. “Muitas pessoas viajam para fora e não percebem a beleza que têm por perto.”

Perfil 

Projeto Circuito de Turismo Comunitário

O que é?

Projeto da Caiçara Expedições que tem como principal proposta preservar as tradições locais ao fomentar a visitação turística. Para isso, integram pessoas da comunidade ao roteiro, como monitores, ou expositores de artesanato ou comida local. Uma forma de gerar renda e exaltar os saberes populares.

Onde?

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