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Sábado

17 de Agosto de 2019

A liberdade está bem ali, no quintal de Lydia

Alfabetizada aos 65, idosa abriu biblioteca pública

Foi na idade em que muitos pensam em parar, desistir, descansar, que Lydia Gonçalves diz ter começado a viver. Até então analfabeta, perdeu parte da terra que o pai lhe deixou depois de assinar um documento sem saber o que era. Lydia pensava estar registrando um pedaço de chão em seu nome, quando na verdade havia passado parte do terreno que herdara a um advogado desonesto. “Ali, decidi que iria estudar e não deixar ninguém perto de mim sem saber ler”, conta. 

Foi assim que, aos 65 anos, ela começou a se alfabetizar. E no instante em que foi movida por aquela decisão, foi lançada também a semente da Biblioteca Comunitária Escritora Lydia Gonçalves, em Itanhaém. O lugar tem mudado os hábitos dos moradores do Bairro Estância Santa Cruz. 

Lydia, hoje com 83 anos, nasceu e cresceu no mesmo bairro, afastado do Centro. Seguia os passos dos pais, lavradores, na terra fértil de onde brotava o sustento da família, que não tinha ninguém que tivesse frequentado a escola. 

“Ali, eu cresci, casei, vi meus filhos crescerem também e meu marido morrer. Casei de novo. Imagina! Achei que não faria mais nada da vida”. Mas, ao saber que tinha sido passada para trás por não saber juntar o amontoado de letras no documento, decidiu dar um novo rumo à vida. “Falo para todo mundo que comecei a viver com 65 anos, quando fui para a escola.” 
Lydia concluiu o Ensino Fundamental I e II e o Médio na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Depois, emendou uma faculdade de Pedagogia e a publicação de três livros. Apaixonada pelos estudos, não parou. Atualmente, cursa o último ano de Direito. 

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Mas, como ela mesma diz, não poderia fazer tudo apenas para si e deixar de abrir as portas de um novo mundo – ou as páginas de novos livros – a outras pessoas. Por isso, há quatro anos, transformou o quintal de casa em uma biblioteca. Uma forma de colaborar com a libertação dos que estão a sua volta: segundo ela, leitura é sinônimo de liberdade.

“Saí pedindo e comprando livros. A Prefeitura de Itanhaém me ajudou e doou alguns, e o sonho foi se concretizando”, lembra, entre risos.

Entre seus autores preferidos, estão José de Alencar e Graciliano Ramos. Ao todo, são mais de 2 mil títulos organizados com cuidado nas prateleiras. 

Quem chega pode sentar e ler no local, emprestar livros e participar das rodas de contação de histórias ou aulas de reforço escolar comandadas por Lydia.

“Eu conheci a Lydia no lançamento do primeiro livro dela e fiquei encantada. Eu falo sempre que ela vivia em uma gaiola e, depois que foi estudar, se libertou”, afirma Elizabeth Cury Bechir Watanabe, membro e ex-presidente da Academia Itanhaense de Letras, da qual Lydia também faz parte. Hoje, segundo Elizabeth, o projeto da amiga é um grande exemplo de impacto social e de perseverança.

Oportunidade

Talvez Jamilly Bessoni Felippe, de 9 anos, ainda não entenda toda a dimensão dos esforços de Lydia e da resistência que os livros ajeitados nas prateleiras de um quintal representam. Mas é lá que ela sempre está. “Sempre veio e pego livros de animação e de princesas”, conta. 

O pai dela, Jorge Felippe, comemora. “Eu apoio. É bom porque distrai e faz com que ela saia de frente da TV.” Ele faz questão de agradecer a Lydia pelo empenho. “O bairro é afastado. Então, é importante essa oportunidade de ter uma biblioteca com tantos livros aqui.”

Jamilly, de 9 anos, está sempre em meio a livros. “Faz com que ela saia da frente da TV”, apoia o pai, Jorge (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Ler e ouvir histórias, um incentivo à cultura

Matheus Silva Fajaro, de 8 anos, diz ir à biblioteca atrás dos gibis, Nathan Gonçalves Castro, de 12, também. No entanto, não escondem o encantamento ao ouvir, em roda, a história contada pela voz de Lydia. 

“Mas eles existem de verdade?”, alguém arrisca perguntar sobre os personagens fantásticos de um dos contos. “O envolvimento deles ajuda a fomentar o gosto pela leitura”, diz Lydia, com o brilho nos olhos de quem vence desafios.

Incentivar a leitura em um País onde se lê pouco é um desafio e tanto. “Esse é um trabalho maravilhoso. Porque o que vemos nas salas de aula é a falta de leitura dos nossos alunos”, conta a professora Claudia Bechir, amiga de Lydia. “É um trabalho muito importante”.

“(O trabalho) Ajuda na conscientização da importância da leitura e na divulgação da cultura. Aqui, ela oferece acesso a ideias de grandes mentes a uma comunidade afastada”, considera a também amiga e advogada Joana Soares Merlin Scholtes. 

Sonia Aparecida do Nascimento Cândido mora no Bairro Estância Santa Cruz e é avó de dez crianças. Ela conta que os netos frequentam a biblioteca comunitária e isso representa uma grande oportunidade de diversão, estudo, conhecimento e, também, a oportunidade de estarem longe de coisas erradas. “o que queríamos mesmo era que esse projeto crescesse cada vez mais.”

Lydia faz rodas para contar histórias e comanda aulas de reforço escolar. Ela é formada em Pedagogia (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

Perfil

Biblioteca Comunitária Escritora Lydia Gonçalves

O que é?
Uma biblioteca comunitária no Bairro Estância Santa Cruz, em Itanhaém. Além de leitura no local e empréstimo de livros, também são realizadas rodas de contação de histórias e aulas de reforço escolar.

Onde é?
Rua Mogi das Cruzes, 310, Estância Santa Cruz, em Itanhaém.

Contato:
Telefone 3429-3228.

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