Thaynara Moraes, Thaís Campregher, Vanessa Toledo, Gabriela Moreira, Thayssa Nusa (Yara Tomei) Tem gente que acorda e já pega o celular para responder mensagem de trabalho. Tem gente que sente culpa quando descansa. Tem gente que termina o dia cansada, mas com a sensação de que ainda não fez o suficiente. Em algum momento, viver no limite virou algo normal. A atualização da NR1 trouxe uma discussão importante sobre saúde mental no trabalho. Mas, no episódio, o assunto rapidamente saiu da parte técnica e foi para um lugar muito mais próximo da realidade de muita gente. Vanessa Toledo e as tricoteiras Thaís Campregher, Thayssa Nusa e Thaynara Moraes receberam a enfermeira e especialista em NR1, Gabriela Moreira, para uma conversa sobre exaustão, autocobrança, metas inalcançáveis e a dificuldade que muita gente tem hoje de simplesmente desligar. O que muda com a atualização da NR1 A partir de 26 de maio, empresas passam a ser oficialmente responsáveis também pelos chamados riscos psicossociais dentro do ambiente de trabalho. Isso inclui situações como sobrecarga, assédio, metas abusivas e contextos que afetam diretamente a saúde emocional dos colaboradores. Durante muito tempo, normas de segurança no trabalho ficaram associadas quase exclusivamente aos riscos físicos: acidentes, ergonomia, esforço repetitivo ou exposição a produtos químicos. Mas, agora, a saúde mental também passa a entrar nessa conta. Gabriela explicou que a NR1 funciona como uma norma regulamentadora voltada à identificação e ao gerenciamento de riscos dentro das empresas. E a grande mudança está justamente no reconhecimento de que o adoecimento emocional também precisa ser tratado como questão de saúde ocupacional. Anos atrás, doenças emocionais ainda eram tratadas por muita gente como exagero ou “frescura”. Hoje, o cenário é outro. Os afastamentos por ansiedade, depressão, burnout e exaustão cresceram, e os transtornos mentais passaram a ter reconhecimento oficial dentro das classificações médicas. Mais do que uma mudança burocrática, a atualização da NR1 acaba refletindo uma transformação cultural: entender que saúde mental deixou de ser um assunto secundário dentro das relações de trabalho. Alta performance também pode adoecer Existe uma ideia antiga de que só adoece emocionalmente quem não aguenta pressão. Só que, muitas vezes, acontece justamente o contrário. Segundo Gabriela Moreira, muitos casos de burnout aparecem em profissionais extremamente comprometidos: pessoas que entregam resultado, assumem responsabilidades, se cobram o tempo inteiro e vivem tentando alcançar expectativas cada vez maiores. Ao relembrar experiências do período em que trabalhou em banco, Thayssa Nusa falou sobre metas que deixavam de ser apenas desafiadoras para se tornarem praticamente impossíveis de alcançar. Em alguns casos, atingir 100% já não bastava mais. A cobrança passava para 120%, 150%. Porque o excesso nem sempre chega de forma evidente. Ele vai sendo normalizado aos poucos. A resposta fora do horário vira comprometimento. O cansaço constante vira rotina. Descansar começa a dar culpa. Até que produtividade deixa de ser apenas trabalho e passa a virar valor pessoal. O trabalho não termina mais quando o expediente acaba O problema é que muita gente já nem sabe mais quando o trabalho termina. O celular toca fora do horário. A mensagem chega durante o jantar. O WhatsApp vira extensão do escritório. E descansar sem olhar a tela parece cada vez mais difícil. A tecnologia trouxe praticidade, mas também apagou muitos dos limites que existiam antes entre vida pessoal e profissional. Quando o assunto chegou ao home office, apareceu uma sensação muito comum para quem viveu a rotina da pandemia: a ideia de que trabalhar em casa traria mais qualidade de vida. Para muita gente, aconteceu justamente o contrário. Sem o deslocamento, sem o horário fixo e com o trabalho acontecendo dentro de casa, a resposta rápida virou hábito. O “já que estou aqui” virou rotina. Tem gente que responde mensagem antes de dormir. Tem gente que acorda e já pega o celular para resolver problema de trabalho antes mesmo do café. Thayssa Nusa contou que precisou criar limites na própria rotina e até reeducar clientes para conseguir se desconectar fora do horário de trabalho. Porque desligar, hoje, já não acontece naturalmente. Foi nesse ponto que Gabriela Moreira resumiu uma sensação que atravessou boa parte da conversa: “Estamos deixando de fazer coisas importantes para o CPF e focando só no CNPJ.” Gabriela Moreira (Yara Tomei) Nem tudo passa por grandes mudanças Em meio às dúvidas sobre fiscalização, custos e adaptações da NR1, ficou claro que cuidar da saúde mental dentro da empresa nem sempre exige mudanças gigantescas. Às vezes, começa em coisas pequenas. Ouvir o funcionário. Entender a rotina dele. Perguntar o que faria diferença no dia a dia. Gabriela Moreira explicou que muitas empresas ainda associam qualidade de vida apenas a grandes projetos ou ações complexas. Mas, na prática, pequenas flexibilizações já podem gerar impacto. Teve empresa que perguntou diretamente aos funcionários o que eles gostariam de ter dentro da rotina de trabalho. Para alguns, era folgar no aniversário. Para outros, sair mais cedo em um dia específico da semana ou ter horários mais flexíveis. Pequenas mudanças, mas que mudam a forma como o funcionário se sente dentro daquele ambiente. Porque, muitas vezes, acolhimento não passa apenas por benefício. Passa pela forma como as relações acontecem dentro da empresa. Liderança também entra nessa conta Por muito tempo, muita gente chegou a cargos de liderança apenas por resultado, sem necessariamente aprender a lidar com pessoas. E isso ajuda a explicar por que tantos ambientes ainda funcionam na base da pressão, do medo e da cobrança constante. A conversa também passou por outro ponto delicado: muita gente chega a cargos de liderança sem nunca ter aprendido a lidar com pessoas. Por isso, a mudança proposta pela NR1 não passa apenas por regras ou documentos. Ela também exige mudança de comportamento, cultura e relação humana dentro das empresas. Pra guardar na caixinha Viver cansado o tempo todo não deveria ser normal. Tem gente produzindo muito, entregando resultado, dando conta de tudo… e ainda assim completamente esgotada. Alta performance não deveria custar saúde, descanso e vida pessoal. Porque trabalhar faz parte da vida. O problema começa quando a vida passa a existir só em função do trabalho. Thaynara Moraes, Thaís Campregher, Vanessa Toledo, Gabriela Moreira, Thayssa Nusa (Yara Tomei) Onde assistir Esse e outros episódios do Tricotáh estão disponíveis no canal oficial do programa no YouTube. Link do youtube: https://youtu.be/qGHK94Wh24o?si=ZlPeSGrjay6GpStp