(FreePik) Poucos países no mundo reúnem simultaneamente o que o Brasil possui: a maior biodiversidade do planeta, uma das agriculturas mais produtivas do mundo e um setor de biocombustíveis com décadas de acumulação tecnológica. Esse conjunto de ativos coloca o país em posição singular para liderar a transição global em direção à bioeconomia - modelo de desenvolvimento que integra recursos biológicos renováveis, ciência, inovação e conhecimento tradicional para substituir produtos de origem fóssil e gerar valor de forma sustentável. O conceito ganhou contornos institucionais com a Estratégia Nacional de Bioeconomia, lançada em junho de 2024, e com o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), seu principal mecanismo de implementação, lançado em 1o de abril. O plano visa integrar produção, conservação e inovação, movimentando os setores industrial, farmacêutico e agrícola com inclusão social, orientando a transição econômica do país até 2035. A bioeconomia se estrutura sobre cinco alicerces interdependentes: matéria-prima, tecnologia de conversão, produto, mercado e políticas públicas - uma lógica transversal capaz de reorganizar múltiplas cadeias, da floresta ao combustível, da biomassa ao biofármaco. No plano da política industrial, o Nova Indústria Brasil (NIB) organiza cinco missões de reindustrialização, duas das quais dialogam diretamente com essa agenda: a transição energética e a neoindustrialização baseada em cadeias de alto valor agregado. A bioeconomia pode ser o principal vetor de execução dessas missões, conectando campo, floresta, indústria e ciência. As dimensões desse potencial foram quantificadas em estudo da Associação Brasileira de Bioinovação (ABBI) em parceria com o Instituto Senai de Inovação em Biossintéticos e Fibras, concluído em 2024 e apresentado na COP28. Em um cenário otimista até 2050, a partir de um investimento de US\$ 257 bilhões, o Brasil poderia alcançar receita anual de US\$ 593 bilhões, com redução acumulada de cerca de 28 gigatoneladas de CO2. Segundo Thiago Falda, presidente executivo da ABBI, no episódio 235 do podcast Nem Negacionismo, Nem Apocalipse, disponível no Spotfy, isso significaria aumentar em 18 vezes a produção de biocombustíveis e duplicar a participação da indústria química nacional no mercado global - de 3% para 6%. Assim, é possível desvincular crescimento econômico do aumento de emissões. Dentro dos biocombustíveis, o biogás e o biometano - obtido pela purificação do biogás - merecem destaque. Projeções da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (Abiogas) indicam que seu aproveitamento pleno poderia eliminar as importações brasileiras de combustíveis fósseis e substituir cerca de 62% da demanda nacional de diesel. O biogás é produzido a partir de resíduos agropecuários, sólidos urbanos e de esgotamento doméstico, tornando-o vetor concreto de economia circular. O SAF (combustível sustentável de aviação) é outro vetor prioritário, em setor de difícil eletrificação e com demanda internacional crescente, onde a cadeia sucroalcooleira brasileira tem vantagens competitivas concretas. É nesse contexto que a ABBI assume papel estruturante. Com dez anos de atuação, congrega mais de dez setores da economia, três grandes instituições de pesquisa, escritórios jurídicos e certificadoras - rede que expressa a transversalidade de uma agenda cujas fronteiras não coincidem com as de nenhum setor tradicional. O desafio está em transformar vantagem comparativa em capacidade instalada, articulando ciência, política pública e investimento privado. *Gesner Oliveira, economista, professor e coordenador do Centro de Infraestrutura e Soluções Ambientais da FGV