(Reprodução) A grande Eliane Potiguara, primeira escritora indígena do País, afirma que nós, escritores indígenas, assim como roteiristas, comunicadores das redes sociais, professores e até políticos indígenas, temos o papel de conscientizar a população sobre as questões ambientais. Afinal, há muito trabalho a ser feito para plantar nos corações das pessoas a necessidade de agir agora, a fim de adiar ou minimizar as crises que certamente ocorrerão em razão das mudanças climáticas. O livro que apresentamos hoje, A Árvore dos Sonhos, de Kamuu Wapichana e Nôra Pimentel, dialoga com essa reflexão. A obra é bilíngue, com tradução de Nilzimars Wapichana, ilustrações de Bartô e edição da Avá. A apresentação é assinada pela escritora, pesquisadora e ativista Truduá Dorrico Macuxi. A história se passa em uma aldeia chamada Wadap, onde os habitantes viviam em harmonia com a natureza e desfrutavam de prosperidade. Certo dia, o pajé teve uma revelação: chegaria o momento em que invasores tomariam aquelas terras. Ele guardou essa visão para si até que chegasse a hora certa de compartilhá-la. Enquanto isso, preparou sua neta, transmitindo a ela seus conhecimentos. Quando a jovem cresceu e estava pronta, o pajé reuniu o povo e contou sobre a profecia. Pediu que todos plantassem muito milho e mandioca e guardassem as sementes, pois em breve precisariam buscar um novo lugar para viver. Antes de partir, o pajé transmitiu seu poder espiritual à neta e seguiu para a mata, pois entendia que seu tempo havia chegado. Algum tempo depois, os invasores começaram a chegar. Apesar das tentativas de resistência, o povo compreendeu que era hora de partir. Wizin, a nova pajé, assumiu a liderança da comunidade. Durante a jornada, porém, foi necessário fazer uma pausa para descanso. Muitos acreditaram que já estavam seguros e não queriam continuar. Foram então surpreendidos pelos invasores, e uma grande batalha teve início. Muitas vidas foram perdidas, inclusive a da própria Wizin. No local onde a pajé foi enterrada, nasceu uma grande árvore. Os sobreviventes passaram a se comunicar com ela por meio dos sonhos. Wizin os alertava sobre os perigos e os orientava em momentos difíceis. Quando chegou a hora de fugir novamente dos invasores, o povo levou consigo as sementes dos frutos da Árvore dos Sonhos e se espalhou pelos diversos lugares onde os indígenas encontraram abrigo. Kamuu Dan Wapichana nasceu em Boa Vista, capital de Roraima. Escritor, contador de histórias e educador socioambiental, estuda Gestão Ambiental na Universidade de Brasília e atua na Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). Foi premiado três vezes no Concurso Tamoio. Nôra Pimentel nasceu em uma pequena comunidade wapichana, em Roraima. Filha de pai com raízes nordestinas e mãe afro-indígena amazonense, cujo pai era indígena nascido no Peru, também vive em Brasília e está em processo de retomada junto ao povo Aymara. É pedagoga e especialista em Residência Agrária, com habilitação em Cultura, Arte e Comunicação pela Universidade de Brasília. Integra o Coletivo Mulherio das Letras Indígenas e recebeu o Prêmio Jabuti, na categoria Fomento à Leitura, em 2023, pelo álbum Guerreiras da Ancestralidade. A leitura é recomendada para estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental. Serviço: A Árvore dos Sonhos dos autores Kamuu Wapichana e Nôra Pimentel, com ilustrações de Bartô. Editora Avá, 36 páginas e R\$ 60,00.