(Reprodução/Instagram) Não há dúvida de que o presidente Javier Milei conquistou importante vitória eleitoral na Argentina. Seu partido, A Liberdade Avança, obteve 40,68% dos votos para a Câmara dos Deputados, contra 31,69% do peronismo, principal partido da oposição, com vantagem ainda maior no Senado (42,15% a 28,41%). O resultado foi surpreendente, uma vez que, em pleito recente na Província de Buenos Aires, a maior do país, a coalizão peronista havia tido grande vantagem sobre a de Milei. Embora a renovação do Congresso argentino tenha sido parcial (metade da Câmara e um terço do Senado), os números mostram que o partido de Milei passou de 37 deputados para 80. Somado aos 24 deputados do PRO, do ex-presidente Mauricio Macri, os governistas chegam agora a 104 cadeiras, mais de 40% da Câmara. Um dos objetivos foi alcançado: com mais de 30% da Casa, não se conseguirá mais derrubar, pela via legislativa, eventuais vetos de Javier Milei. A pergunta que pode intrigar muita gente é por que Milei ganhou. Seu governo vivia, às vésperas das eleições, crise provocada por denúncias de corrupção e grandes problemas sociais, com queda de sua aprovação (56% desaprovando seu trabalho) e 68% dos argentinos considerando que a economia do país vai mal, segundo pesquisa Atlas Intel. No entanto, seu governo conseguiu reduzir a inflação no país: o índice, que chegara a 25,5% no mês de dezembro de 2023, recuou para 2,1% em setembro de 2025. Como consequência direta disso, houve recuo da quantidade de pessoas abaixo da linha da pobreza. Durante 2024, essa taxa caiu de 52,9% no 1º semestre (mais da metade da população argentina) para 38,1% no final do ano. Nesta eleição, Milei recebeu ajuda importante de Donald Trump, com aporte de US\$ 20 bilhões, mas esta não foi a principal causa da vitória do atual presidente. Pesou muito mais a exaustão do povo argentino, que vem assistindo há décadas à derrocada econômica e social do país, sem enxergar saída possível. O comparecimento nestas eleições foi o mais baixo desde 2003, revelando o cansaço e a apatia da população. A perda de esperança é fatal para a saúde democrática das nações. A Argentina vive esse drama há bastante tempo. Diante de várias tentativas – vivendo populismos fracassados, como o de Carlos Menem e o do casal Nestor-Cristina Kirchner, ambos originários do peronismo, e o fracasso da experiência liberal de Mauricio Macri – não restava mais nada senão apostar em uma figura caricata e histriônica, mas que constituía a única alternativa nesse momento. A Argentina está ainda muito longe de superar seus graves problemas, e é muito incerto que Milei consiga, de fato, consolidar-se. Mas os argentinos deram a ele mais uma chance. Não se sabe se ele irá negociar ou conter-se, ou se manterá sua posição radical e libertária, aprofundando as tensões e cisões já existentes. A aposta, por enquanto, foi mantê-lo como alternativa. A nova pergunta talvez seja: até quando? *Alcindo Gonçalves. Engenheiro, cientista político, professor da Universidade Católica de Santos e responsável pela metodologia e RI do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT)