( Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil ) Há momentos em que a cidade parece conter o fôlego, como se escutasse o próprio coração. Uma luz breve atravessa o dia e revela que já caminhamos sobre futuros sonhados por gerações, embora insistamos no compasso antigo. Falamos de metrópoles que cuidam, de rios libertos, de ruas que acolhem passos, de parques que suturam fraturas urbanas. Em congressos e maquetes prometemos esse amanhã luminoso. Muitos desses sonhos repousam em gavetas, como cidades inteiras à espera de coragem. Escritores e cineastas imaginaram versões de nós. Le Guin, Calvino, Bradbury, Orwell, Asimov; depois Metrópolis, Blade Runner, Akira, Her, Gattaca, Children of Men, entre tantos outros. Propuseram futuros em que a ética venceria a pressa. Ainda assim ignoramos aquilo que desejamos ser. Penso que cidades só respiram quando devolvemos às pessoas o que o concreto sequestrou: a chance de pertencer ao território. Persistimos em comprimir rios, cobrindo canais e apagando nascentes sob avenidas que chamam velocidade de progresso. Esquecemos que a água tem memória e sempre retorna ao que é seu. A cada chuva forte, o esquecimento nos visita: enchentes, erosões, solos frágeis. Não é castigo, é coerência natural. O urbano apenas reflete o que adiamos. Durante a pandemia, quando o ruído humano cessou, a natureza avançou em semanas o que levaria anos. Águas clarearam, ecossistemas emergiram, territórios se recomporam. A lição era evidente: regenerar é possível, basta não impedir. Mas ao retomarmos o ritmo, voltamos a adiar. Adiamos renaturalizar rios, modernizar drenagens, enfrentar cidades que enterram a própria hidrologia e depois pedem socorro quando a água reivindica seu caminho. Transformamos urgências em slogans frágeis, enquanto o território espera menos do que merece. A pergunta retorna: por que adiamos? Talvez porque mudar exige desapego. Talvez porque esperamos que o tempo organize o que evitamos. Talvez porque reconstruir pede humildade. Mas o futuro não está adiante. Ele já está aqui, observando se teremos coragem. A água não espera. O clima não espera. Dezembro também não. O tempo pede uma escolha. Seguimos adiando ou enfim começamos o agora? *Alessandro Lopes. Arquiteto, urbanista, pesquisador em Cidades Inteligentes e consultor regional – Instituto MultipliCidades