(Reprodução / Pixabay) Entre as tantas promessas que o fim do ano inspira, poucas sobrevivem ao cotidiano. As grandes resoluções se perdem, mas talvez a real transformação esteja nos gestos quase invisíveis — aqueles que não aparecem nas listas resolutivas, mas moldam silenciosamente quem somos. Não são as solenes declarações as principais sobreviventes do Ano-Novo, são as melhores observações que conseguimos coletar nos pequenos detalhes da nossa enorme insignificância. Lancemos mão da ajuda de alguns elementos para melhor esclarecer esse ponto. A terra, por exemplo, ensina o valor da presença: cuidar do que está ao alcance, regar o que se tem e que precisa crescer, reconhecer a textura do instante, valorizar a concretude de nossa passagem pela existência. O fogo lembra que toda mudança começa com um pequeno estalo — o entusiasmo de sair um pouco da casa velha e sempre acolhedora, de se mobilizar em direção a algo novo e imprevisível. O mar convida à escuta: seu movimento lembra que nada é fixo, que a vida pulsa no vaivém das marés internas e que tudo tem um fim e um recomeço, até mesmo a morte é o início da vida para alguns organismos, um verdadeiro coice no autocentrismo. E o tempo, paciente e discreto, mostra que amadurecer é menos sobre pressa e mais sobre continuidade. Quando não assumimos essas pequenas escolhas, buscamos refúgio num “paraíso interior”, confortável e previsível, onde tudo parece sob controle. Mas é nesse abrigo que também se entrincheiram o medo de errar e o hábito de responsabilizar o mundo por aquilo que deixamos de viver. A verdadeira coragem talvez esteja em abrir espaço para o incerto — em aceitar o desconforto de mudar uma rotina, um pensamento, uma palavra. A arte é o território onde esse exercício se torna visível e público. É ela que nos lembra que a vida também se expressa no inacabado, no imperfeito, no instante em que algo dentro de nós se desloca e que ainda não chegou à perfeição. Talvez nunca chegue a esse estágio de completude e precisamos encarar essa pequena derrota a cada instante. Assim pensado, é nas pequenas renovações que o humano se refaz — um gesto de cada vez, uma gota que forma o oceano e que o contém completamente. *Ricardo Pegorini. Escritor e autor do livro Contos do Tempo e da Terra, do Fogo e do Mar