(Reprodução) O Brasil está ficando mais velho. Isso não é opinião, é fato. E dos mais duros. O próprio governo admite que o envelhecimento da população vai pressionar, e muito, a Previdência e o sistema de saúde nos próximos anos. As projeções indicam aumento de gastos, mais demanda por atendimento e um rombo crescente nas contas públicas. O déficit previdenciário pode até quadruplicar até o fim do século. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Não há surpresa nisso. Envelhecer é natural. É sinal de que a medicina avançou, de que as pessoas vivem mais. O problema começa quando o país envelhece sem planejamento. E é exatamente isso que está acontecendo. O Brasil envelhece rápido. Muito mais rápido do que países ricos envelheceram. Enquanto outras nações tiveram quase um século para se adaptar, aqui o processo ocorreu em poucas décadas. Isso exige preparo. Exige política pública. Exige investimento sério. E não improviso. O que se vê hoje é um sistema de saúde já sobrecarregado, que precisará de bilhões a mais só para dar conta da nova realidade. A estimativa oficial fala em mais de R\$ 100 bilhões adicionais até 2036. E, ainda assim, o acesso continua difícil, com filas, demora e falta de estrutura. Na Previdência, a equação é simples e cruel. Menos jovens contribuindo, mais idosos recebendo. O sistema sente. E vai sentir mais. Não se trata de demonizar aposentadorias. Trata-se de reconhecer que o modelo precisa ser sustentável. Mas há um ponto que costuma passar despercebido. O idoso brasileiro não é apenas beneficiário. Ele é, muitas vezes, o pilar da família. Milhões de brasileiros com mais de 60 anos recebem aposentadoria, sim. Mas isso não significa conforto. Pelo contrário. Muitos continuam trabalhando. Não por escolha, mas por necessidade. Sustentam filhos desempregados. Bancam netos. Seguram a casa quando a renda principal desaparece. A aposentadoria, que deveria garantir dignidade, virou complemento de renda familiar. Em muitos lares, é a única renda estável. E aí entra a contradição. O país discute números, déficits e projeções de longo prazo, mas esquece o presente. Esquece que há um contingente crescente de idosos ativos, produtivos, mas desprotegidos em vários aspectos. Falta investimento em saúde voltada ao envelhecimento. Faltam políticas consistentes de proteção ao idoso. Falta adaptação das cidades, dos serviços e do mercado de trabalho a essa nova realidade. O Estatuto do Idoso existe. No papel, garante direitos. Na prática, ainda é insuficiente diante da velocidade das mudanças. O envelhecimento não é uma crise. É uma conquista. Mas só continua sendo conquista se vier acompanhado de estrutura, planejamento e respeito. Caso contrário, o que se desenha é um país mais velho, mais pressionado e mais desigual. E isso, convenhamos, é um retrato que ninguém deveria aceitar como inevitável. Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo.