(Divulgação/Freepik) Gosto de sonho de padaria. Daqueles com recheio de creme. Faz tempo. Não por restrição — nem diabetes, nem obesidade —, mas porque ando vendo desaparecerem as padarias de bairro. Gourmetizaram tudo. E seus doces… bem, já não são lá um sonho. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Quando criança, não tive dúvida: queria ser médico. Devia ter uns nove anos quando a professora pediu uma redação sobre o que queríamos ser quando crescêssemos. Escrevi isso sem hesitar. Minha mãe guardou o papel por anos. Hoje, perdeu-se — como quase tudo o que a gente acredita que vai durar para sempre. Não sei se cresci, mas cumpri o plano. Também levei a sério o sonho de ter filhos: por falta de um, vieram três. Três filhos, já homens. Cada um, à sua maneira, foi parar no território das artes — cinema, publicidade, design. Essa história de escrever, desconfio, aprendi com eles. Plantar árvore nunca foi problema. No interior de Minas, onde trabalhei como médico, plantei várias. Algumas devem estar de pé até hoje, indiferentes a quem as pôs ali. Mais tarde veio outro desejo, desses que não fazem barulho: escrever. Sempre escrevi. Com a aposentadoria, ganhou espaço. Passei a ler mais, a escrever mais — e a levar isso a sério, como se ainda fosse aquela redação de escola. Recentemente, fui convidado para um encontro sobre escrita na Pinacoteca Benedito Calixto, em Santos. Fiquei pensando no quanto essa história de “dom” é confortável. Escrever, aprendi, tem mais de insistência do que de inspiração. Precisa gostar de ler e aprender com isso. Os assuntos estão por aí. Na padaria, na praça, no jeito de um amigo falar, nas histórias dos outros — e nas nossas, quando a gente resolve escutar. Os sonhos estão por aí. Não envelhecem. Só os de padaria. Marcio Aurelio Soares. Médico.