(Reprodução/Pixabay ) Ao organizar a lista de convidados para o casamento, um escritor britânico percebeu que não tinha amigos homens próximos que justificassem o convite. Os nomes que vinham à sua cabeça eram de colegas de trabalho e quem não pertencia a esse círculo eram pessoas que não se falavam há mais de três anos. Este não é um exemplo isolado. O número de pessoas sem amigos próximos disparou, enquanto diminuía o número de amizades profundas. Nos EUA, por exemplo, levantamento do Survey Center on American Life mostrou que 15% dos homens não tinham amizades próximas, contra número bem menor décadas antes. O mesmo estudo aponta queda acentuada no número de homens com seis ou mais amigos próximos. Homens, em especial, têm menos amigos que mulheres, situação que piora com o envelhecimento, o que favorece o surgimento de doenças mentais e degenerativas. Sabe-se que, no Reino Unido, 20% dos homens não têm amigos. O dobro do que acontece com as mulheres. Um fenômeno que se repete independentemente da nacionalidade. As consequências são desastrosas, tornando-se já um problema de saúde pública. Os adolescentes, à medida que crescem, também vão perdendo amigos e passam a sentir-se mais abandonados. Os homens, ao se tornarem adultos, assimilam uma ideia restritiva de masculinidade, particularmente forte no Ocidente. Mostrar vulnerabilidade, por exemplo, não é visto como comportamento normal, sendo associado ao universo feminino. Isso dificulta o relacionamento entre eles. Esta masculinidade rígida, difundida em todo o Ocidente, dificulta vínculos emocionais mais profundos. Homens que se permitem trocar afeto, escuta e confidências existem em todas as sociedades; o que varia é a permissão social para fazê-lo. O problema não está numa herança ancestral imutável, mas na persistência de um machismo que empobrece a vida emocional masculina. Entre 5% e 15% dos adolescentes sofrem de solidão. No caso dos homens, a falta de vínculos significativos, bem como a desconexão consigo mesmos e sua fragilidade emocional, tem levado não apenas a quadros graves de depressão e ansiedade, mas também a comportamentos de violência pública e interpessoal. Por mais ocupada que seja a vida adulta, devemos dedicar parte de nosso tempo para os outros, aceitar convites, tomar iniciativas de encontros. O desejo de pertencimento é inerente à nossa espécie. Pense que outras pessoas também precisam de relacionamentos sociais saudáveis. Talvez aquele escritor britânico, diante da lista de padrinhos, tenha descoberto tarde demais aquilo que muitos homens descobrem em silêncio: não basta conhecer muita gente. É preciso ter a quem chamar. *Marcio Aurelio Soares, Médico