Carlos Conde: "Pela manhã o canário procurou o dono amado com os olhos e não o encontrou. Saiu da gaiola em silêncio e nunca mais voltou" (Imagem gerada por IA) Seu nome era Milton. Mas como já havia um Milton na família todos começamos a chamá-lo por um dos sobrenomes: Corrêa. Ele tinha três grandes paixões na vida. Aurora, o Santos Futebol Clube e um canário belga ao qual não deu nome. Alimentava uma paixão incontrolável pela namorada. E era plenamente correspondido. Seu futuro sogro, o comerciante José Thomaz de Abreu, recebeu uma informação equivocada de que ele não gostava de trabalhar. Pai devotado, conversou com sua filha Aurora, que ele adorava, e passou-lhe a informação “de uma fonte segura”. Deu um exemplo: “Se você o colocar de ponta cabeça não cairá um vintém”. Lamentou muito e teve dificuldade em contar: “Teu namorado é um vagabundo”. Ela chorou demais e recebeu o abraço carinhoso do pai. Quando as lágrimas amainaram, Aurora reagiu: “Isso só pode ser uma calúnia”. E calúnia era. Milton Corrêa Leite era um alto funcionário da conceituada Companhia Aliança. Empregado de toda confiança, era o único que mexia com a volumosa quantidade de dinheiro da empresa. Seu defeito era outro. Não podia ver um rabo de saia. Alertada pelas melhores amigas, Aurora pediu uma explicação a ele. A resposta foi curiosa: “O olhar pode ser de todas. Mas o coração é só de uma. De você, meu amor”. O casamento corrigiu o velho defeito e confirmou a frase espirituosa. Foram felizes para sempre. A outra paixão era pelo Alvinegro de Vila Belmiro. Torceu e vibrou com ele desde seu tempo de calça curta. Ficava muito nervoso ao ver os jogos. A parte do rosto abaixo das orelhas latejava quando o Peixe era atacado. Sua maior alegria foi em tarde ensolarada no temível Alçapão, quando o Santos tornou-se campeão paulista, o título mais importante da época. Foi em 1955, após 20 anos de espera. Um vizinho de arquibancada olhou para ele fascinado e disse: “Que emoção, o senhor está chorando!” A terceira e grande paixão era um canário belga que ele conservava em uma gaiola. E que não parecia triste por viver aprisionado. Cantava alegremente para seu dono e admirador. E recebia dele todo o carinho. Um dia, muito tempo depois, Corrêa resolveu libertar seu passarinho. Abriu a portinhola da gaiola e viu seu amado canário sair voando. Mas, que grande surpresa! No fim da tarde o passarinho voltou todo alegre, cantando e se aninhando na gaiola. Toda manhã ele saía para a liberdade. Mas no fim da tarde, certamente com saudade, voltava ao ninho. Um dia Corrêa morreu. Seus parentes, em homenagem a ele, resolveram manter a prática diária. Pela manhã o canário procurou o dono amado com os olhos e não o encontrou. Saiu da gaiola em silêncio e nunca mais voltou. *Carlos Conde é jornalista.