(Wilson Dias/Agência Brasil) Há quem diga que as crianças de hoje nascem com o dedo preparado para deslizar telas. Exagero. Elas nascem, isto sim, com um receituário esperando na maternidade — um receituário que, se não for assinado no berçário, o será logo nos primeiros tropeços da alfabetização. E assim, antes que aprendam a amarrar os cadarços, já carregam rótulos clínicos tão pesados quanto mochilas de escola pública. O mais novo deles, aquele que circula como celebridade em corredor de consultório, chama-se TDAH. Um diagnóstico que, de tão frequente, já parece figurante de novela. O mundo inteiro assiste, preocupado e ligeiramente perplexo, ao desfile de números: milhões de pequenos — não adolescentes, pequenos — alinhados em estatísticas que dariam frio na espinha de qualquer adulto razoável. Mas a verdadeira história começa quando chega o comprimido. Porque o comprimido, este humilde comprimido, é um protagonista ambicioso: ele nunca entra sozinho em cena. Primeiro surge como solução. Depois, como problema. A criança, antes inquieta, agora perde o sono. Ou o apetite. Ou a paciência. Então, alguém conclui que talvez seja necessário mais um comprimido — algo para “balancear”. Palavra doce, quase culinária, que transforma um consultório médico numa espécie de cozinha experimental. E assim, o segundo remédio vem convocado como bombeiro. O terceiro, como psicólogo. O quarto, como segurança particular. A farmacologia vira uma espécie de condomínio: cada pílula com sua função, sua vaga na garagem, sua taxa de manutenção. Enquanto isso, a infância — aquela criatura frágil e ruidosa, feita de joelhos ralados e perguntas incômodas — vai ficando soterrada sob bulas. O mais inquietante é ver que, quanto mais cedo começa a ópera medicamentosa, mais longa ela tende a ser. A criança de quatro anos que deveria estar discutindo se prefere brincar de massinha ou pega-pega acaba, anos mais tarde, discutindo dosagem. A menina que mal sabe escrever o próprio nome já precisa decorar o nome de um estabilizador de humor. Não é exclusividade de um país ou outro. Há lugares onde se fala até em “intoxicação medicamentosa” como se fosse categoria olímpica. O que antes era caso raro virou prontuário cotidiano — com quedas de pressão, dificuldade respiratória e outras modernidades que ninguém pediria como presente de aniversário. E o que fazemos diante disso? Algumas pessoas suspiram. Outras culpam a escola, a sociedade, a pressa, os celulares, os pais, a genética, a lua em Capricórnio. O mundo contemporâneo é pródigo em culpados, mas econômico em soluções. Enquanto buscamos respostas, talvez valha lembrar de algo muito simples: criança não é máquina que precisa ser recalibrada a cada ruído; criança é caos, é improviso, é poesia em volume alto. E, convenhamos, a última coisa de que a poesia precisa é receita controlada. *Gregório José. Jornalista, radialista e filósofo