(FreePik) As esquinas são curiosas. Pode ser tarde da noite, mas sempre ocorre de alguém vir em minha direção quando estou dobrando a rua, na direção oposta. Em geral é gente desconhecida, que nunca vi nem nunca verei de novo. Mas também há gente mais ou menos desconhecida — ou mais ou menos conhecida: de fisionomia manjada, mas de cujos nome, profissão, endereço, alegrias ou tristezas não faço ideia. Mais improvável é encontrar um conhecido nas esquinas. Ainda mais um conhecido de longa data. Um conhecido tão conhecido, que não nos víamos há décadas: um amigo de infância. Aconteceu semana passada. Virei a esquina, quase esbarrei no Haroldo. “Rapaz! Quanto tempo!”, ele foi dizendo. Nos cumprimentamos, relembramos aquela época tão antiga, que já nem sabemos qual é. Mas os nomes dos desenhos da tevê, que já estavam desbotados na tela quando éramos jovens, ainda sabíamos de cor; também debatemos qual era o melhor sabor de guaraná — ele defendeu um, eu, outro; relembramos as figurinhas de copa do mundo, os jogos de bafo e videogame; os rabiscos e suspiros em centenas de folhas de caderno, desenhos e corações a canetinha ou a lápis de cor, daquela caixa que se abria em 36 tonalidades tal as flores desabrocham. A conversa sinuosa derrapava nos passados sem sair de seu curso, até que Haroldo soltou a pérola: “Nunca aprendi a jogar botão”. Como assim? Mas se eu lembro de campeonatos da rua, em tardes a fio, com o Haroldo até sendo campeão algumas vezes? Disse-lhe isso, mas Haroldo insistiu: “Não sei jogar; sempre me atrapalhei todo com a batedeira, aquele negócio chato de ‘tá lá’. Nem gostava”. Fiquei boquiaberto: da bola de cortiça, talhada a estilete de rolhas de vinho, às traves feitas de arame e à rede de pedaços de tule, discretamente cortados do vestido de noiva de nossas mães, o botão era um passaporte de sonho, o mais próximo que um moleque da época chegava da emoção dos estádios, defendendo o seu time do coração. Mas pior do que isso foi ele dizer que nunca jogou botão e nem gostava. Confuso, me despedi de Haroldo. Dei-lhe as costas sem graça e quando ia seguir meu caminho, quase esbarrei em... Haroldo! “Rapaz! Quanto tempo!”, foi dizendo, exatamente como antes. Olhei pra trás e vi o Haroldo atravessando a rua. Voltei-me, e à minha frente lá estava também o Haroldo, todo feliz. “Você gostava de jogar botão?”, perguntei. Ele abriu um sorrisão: “Adorava! Era campeão! Não lembra?”. Lembro; realmente, as esquinas são curiosas.