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Sexta-feira

23 de Agosto de 2019

Roberto Debski

Roberto Debski mora em Santos, é médico formado pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e psicólogo formado pela Universidade Católica de Santos. É especialista em acupuntura e homeopatia pela Associação Médica Brasileira, pós graduado em Atenção Primária à Saúde e tem diversas formações em Práticas Integrativas e Complementares, Meditação, Constelações Familiares Sistêmicas, EMDR e Coaching. Com foco na saúde física, mental e Qualidade de Vida, estimula a mudança no comportamento, no estilo de vida e na consciência, a fim de melhorar os resultados dos tratamentos clínicos, dos relacionamentos interpessoais e do bem estar.

O resultado do tratamento médico depende da qualidade da comunicação?

Uma ótima comunicação ou relação médico - paciente é fundamental para o sucesso de qualquer tratamento.

Para que o paciente se sinta satisfeito e motivado a assumir sua parte do tratamento, deve sentir confiança no profissional, e possibilidade de se abrir e contar seus problemas, tanto os físicos quanto suas questões emocionais.

E o médico precisa comunicar-se de maneira efetiva, empática, atenta e perceber que muitas vezes há questões não ditas, que vão além das queixas e sintomas falados na consulta.

Quanto a esse conteúdo emocional, se o médico não se sentir confortável para abordá-lo, pode orientar e encaminhar o paciente a um psicoterapeuta para continuidade do atendimento psicológico.

Dentre outras, uma frequente evidência de que algo ficou não dito na consulta é o “sinal da maçaneta”, aquela frase que o paciente costuma falar quando já está se encerrando a consulta, próximo à porta do consultório, “doutor, tem mais uma coisinha”...

Toda doença tem uma função, e entender do que se trata pode fazer a diferença no resultado do tratamento. As doenças graves, em geral, vêm como sinais que necessitamos entender que algo na maneira como conduzimos nossa vida não está nos levando para um destino saudável.

Quando percebemos essa mensagem e conseguimos corrigir o nosso trajeto, geralmente caminharemos para a cura e viveremos uma vida mais plena e saudável.

Hoje temos muitos especialistas e poucos generalistas.

Os médicos são formados para atuarem em especialidades que atendem doenças muito específicas e localizadas, e perdem de vista a visão do todo, o ser humano que adoeceu.

Quando um médico, mesmo que especialista, consegue perceber as dinâmicas que estão por trás das doenças de seu paciente, tem a possibilidade de atuar de maneira integrativa, orientando-o, e mesmo encaminhando-o para outros profissionais, sejam médicos, psicólogos, nutricionistas ou outros que possam de maneira integrada contribuir para o resultado do tratamento. Esse é o importante olhar de um médico generalista.

Para atender o paciente de forma integrada, o médico generalista trata seu paciente como um todo, também trabalhando com prevenção e orientação,

As características ou atributos para esse atendimento, encontrados na Atenção Primária à Saúde, no serviço público e privado são o fácil acesso, a longitudinalidade ou acompanhamento do paciente ao longo de sua vida, a coordenação do cuidado, cuidando do paciente e somente encaminhando a especialistas quando necessário, o cuidado e centralização na família. São conceitos que fazem parte da integralidade.

Esses atributos são comuns nos médicos de família e comunidade, e também em alguns clínicos e especialistas.

Foi uma temática que ficou em evidência com a crise atual do Programa Mais Médicos, na polêmica relação com os médicos do programa oriundos de Cuba, chamados para voltarem ao seu país, entre acusações de falta de preparo técnico desses profissionais, uso do programa para fins eleitoreiros e de servir para financiar a ditadura cubana, acusação que os médicos brasileiros não iriam trabalhar em locais longínquos entre outras, mas essa questão ficará para uma próxima coluna.

Voltando ao nosso tema, entender o paciente em sua totalidade é importante por várias razões.

Primeiro porque não há doenças que pertençam somente a um órgão.

Somos um organismo integrado, corpo e mente, com órgãos e sistemas funcionando em conjunto, sujeitos aos estímulos ambientais, emocionais, alimentares, e fatores psicossociais.

O especialista domina sua área de atuação, mas além disso deve saber perceber e entender o paciente em sua totalidade para discernir, além do diagnóstico, prognóstico e indicação terapêutica, como pode orientá-lo em relação ao estilo de vida, cuidados com o gerenciamento das emoções, da necessidade ou não de um acompanhamento multiprofissional envolvendo outros agentes de saúde como a nutricionista, educador físico, fisioterapêuta, psicólogo etc..

Também é importante o atendimento integrado para que o paciente se sinta visto como o ser integral que é, que vai muito além de um órgão ou de uma doença, o que gera como resultado aumento da empatia e da confiança, e melhora da qualidade da relação médico paciente, com reflexos positivos sobre a normalmente baixa adesão ao tratamento e sobre os resultados clínicos, possibilitando atingir melhores resultados associado a melhora da satisfação do paciente.

Os problemas que acontecem entre os médicos e pacientes, que levam inclusive a processos e reclamações em órgãos de defesa do consumidor, nos conselhos de medicina e na justiça, se devem muito mais à própria relação profissional cliente em si, do que a problemas técnicos.

Os médicos tendem a superestimar suas habilidades de comunicação.

Uma pesquisa com cirurgiões ortopedistas mostrou que 75% deles acreditava se comunicar satisfatoriamente com seus pacientes, enquanto do lado dos pacientes somente 21% reportaram comunicação satisfatória com seus médicos1.

Saber se comunicar de forma assertiva, empática e efetiva, associado à percepção e sentimentos compartilhados sobre a natureza do problema, aos objetivos do tratamento e do suporte psicossocial necessário faz parte de um tratamento efetivo.

Assim, os pacientes se mostram mais satisfeitos, partilham mais informações pertinentes para o diagnóstico e aderem mais tratamento, conforme demonstrado em metanálise com 106 estudos2.

Reforço a importância da boa comunicação médico - paciente para ampliar o alcance da relação, com confiança, adesão e resultados.

A interação médico paciente é complexa, afeta as escolhas que os pacientes fazem quanto ao tratamento, permite que se percebam como inteiramente participantes das discussões relacionadas à sua saúde.

A a experiência subjetiva influencia a biologia do paciente, é a chamada “biologia da autoconfiança” que faz parte do processo de cura, e lamentavelmente muitos médicos desencorajam seus pacientes a falar e questionar, o que os desempodera, os torna inábeis para atingir os objetivos de saúde e leva ao fracasso terapêutico.

Os pacientes têm seus médicos como uma das fontes mais importantes de apoio psicológico.

A Empatia é uma das maneiras mais poderosas de providenciar este apoio e reduzir os sentimentos de isolamento e validar seus sentimentos e pensamentos.

O principal fator independente preditor de satisfação é a percepção do paciente da qualidade da comunicação, da parceria e uma aproximação positiva do médico.

A satisfação prevê fortemente a adesão ao tratamento e influencia positivamente os resultados nas doenças.

Uma boa comunicação médico paciente pode ser fonte de motivação, incentivo, reafirmação e suporte.

Pode aumentar a satisfação no trabalho, aumentar a autoconfiança e visão do status de saúde o que pode influenciar nos resultados do tratamento.

A maioria das queixas sobre médicos são relacionadas a problemas de comunicação não de competência clínica, embora certamente ambas sejam essenciais.

Quando um médico consegue aliar a competência técnica a um olhar para esse paciente em sua totalidade e comunicar-se de forma efetiva, o tratamento poderá ter resultados positivos que refletirão na saúde e na qualidade de vida daquele que o procura, objetivo final da arte de curar.

Roberto Debski

1- J Bone Joint Surg Am, 2005 Mar 01;87(3):652-658
Communication Skills for Patient-Centered Care: Research-Based, Easily Learned Techniques for Medical Interviews That Benefit Orthopaedic Surgeons and Their Patients
John R. Tongue, MD1; Howard R. Epps, MD2; Laura L. Forese, MD3
 

2- Int J Clin Pract. 2007 Feb;61(2):303-8.
Differences in physician and patient perceptions of uncomplicated UTI symptom severity: understanding the  communication gap. Platt FW, Keating KN.

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