(FreePik) O Brasil carrega, há décadas, uma contradição gritante: é um país de dimensões continentais que trata sua infraestrutura como se fosse uma ilha. Investimos apenas 1,7% do PIB ao ano nesse motor silencioso da economia, enquanto a média mundial gira em torno de 3,5%. O resultado? Portos com potencial travado, estradas esburacadas, ferrovias subutilizadas e uma logística cara que adoece nossas cadeias produtivas. Mas para quem vive e respira o Porto de Santos todos os dias, como eu, é impossível se conformar. 1. Porto-Cidade: o pacto que ainda não fizemos O Porto de Santos vai crescer. Com ou sem túnel. Com ou sem terceira via de acesso. A movimentação de contêineres deve saltar dos atuais 5 milhões de TEU para mais de 8 milhões até 2040, segundo projeções da Empresa de Planejamento e Logística (EPL). Mas e a cidade? Quem acolhe a comunidade que dorme ao lado de pátios logísticos e acorda com buzinas de madrugada? Quem olha para o morador da Vila Alemoa, do Paquetá ou do Saboó, não como obstáculo ao progresso, mas como parte dele? Precisamos planejar a expansão do Porto com os olhos voltados para fora dos muros. Ou vamos afundar no próprio crescimento. 2. Santos 2035: potência ou promessa? O terminal STS10, a nova fase e incremento de capacidade dos terminais portuários, a automação dos gates e a digitalização dos fluxos apontam para um salto operacional. Mas operamos sob o fantasma da judicialização, da morosidade e da desarticulação entre esferas. Investidores aguardam há anos. O Porto de Santos representa mais de 28% da balança comercial brasileira, mas segue refém de visões fragmentadas. É preciso elevá-lo ao patamar de ativo estratégico nacional — com governança moderna, planejamento logístico integrado e voz direta nos planos de Estado. 3. Infraestrutura: o Brasil anda, mas não flui A malha ferroviária representa apenas 20% da matriz de transporte, contra 48% nos EUA. No acesso portuário, essa disparidade grita. Um caminhão leva, em média, o dobro do tempo para escoar cargas da região Centro-Oeste até Santos do que se levaria com um sistema eficiente. O custo logístico brasileiro beira 12% do PIB, enquanto na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) esse número é de 8%. A diferença vira desemprego, inflação e perda de competitividade. Infraestrutura não pode mais ser promessa. É urgência nacional. 4. Gente antes de máquina Fala-se muito de automação, inteligência artificial e digital twin (gêmeo digital) — e tudo isso é necessário. Mas quem transforma esses dados em decisões? Gente. O Brasil tem mais de 40% dos trabalhadores portuários com Ensino Médio incompleto. Falta formação, oportunidade e plano. Enquanto isso, investimos bilhões em sistemas que exigem qualificação que sequer oferecemos. É como comprar um navio e esquecer de formar marinheiros. 5. O porto é do Brasil — mas também é do bairro A comunidade que convive com os impactos do porto todos os dias precisa ser ouvida. Ruído, poeira, trânsito, exclusão. Não basta fazer projetos sociais pontuais. É preciso criar pontes de verdade. Capacitar jovens, abrir portas, mostrar que logística pode ser carreira. O porto tem que devolver dignidade para além da balança comercial. E o que fazer? No curto prazo, destravar obras essenciais, acelerar licenças e garantir presença da comunidade nos fóruns de decisão. No médio, consolidar polos de capacitação técnica portuária, ampliar a intermodalidade e garantir previsibilidade nos contratos. No longo, criar um fundo nacional de infraestrutura com gestão independente, vincular incentivos ao desempenho logístico e posicionar Santos como o grande hub sul-americano de comércio exterior. O futuro está ancorado. Falta coragem para soltar as amarras. E tudo começa onde sempre deveria ter começado: com as pessoas.