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Quinta-feira

20 de Junho de 2019

Resenha Esportiva

Espaço mantido pelos jornalistas Heitor Ornelas, Régis Querino e Bruno Gutierrez. O trio traz informações e comentários sobre o Santos Futebol Clube e tudo mais que acontece no mundo do futebol.

Quem vai ser homem para usar a camisa 24?

Clubes e atletas brasileiros alimentam a questão da homofobia ao evitarem o número

Eu já tinha pensado em falar do assunto nesta semana, mas de forma secundária. O tema principal seria a mania dos jogadores, de uns tempos para cá, de escolherem números “altos” para usarem nas costas e não mais do 1 ao 11, que eram tradicionalmente usados pelos titulares. Mas justamente hoje, dia 23 de janeiro, o jornal Estado de Minas publicou uma reportagem falando sobre a camisa 24, “o número proibido no futebol brasileiro”.

O motivo é óbvio: no jogo do bicho, a dezena representa o veado, um animal que, aqui no Brasil, é associado ao homossexual masculino. E nem quem pratica essa contravenção sabe dessa ligação. Nas escolas, se o menino for o número 24 na lista de chamada, será inevitavelmente alvo de bullying. Você, leitor, pode achar que é muito mimimi em torno de uma “brincadeira de 5ª série”. Mas isso tem sido levado muito a sério pelos clubes brasileiros.

Quando começou a pegar a moda da numeração fixa de jogadores por aqui, os atletas faziam de tudo para fugir da camisa 24. Com base nessa alta rejeição, os clubes acharam a solução: não vai ter mais 24. E isso já é tão corriqueiro que não chama mais atenção. Anos atrás, quando o clube divulgava a numeração fixa dos atletas para a temporada, nós imediatamente reparávamos: “olha, pulou o 24”. Hoje, o alerta é ligado se não tiver o 9, o 10... Sinal de que o número está sendo guardado para algum reforço. O 24 novamente não apareceu, mas quem se importa?

Só há uma situação em que os clubes do Brasil não têm como fugir do número “maldito”: nos torneios organizados pela Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol. Dos 10 países filiados à entidade, nove deles não fazem associação entre o veado e o homossexual. Por isso, não veem motivo para tirar o 24 das camisas dos clubes. Em suas competições podem ser inscritos 30 jogadores e eles só podem utilizar números de 1 a 30. Aí, não tem jeito. Alguém vai ficar com o 24.

Mas até para isso os clubes deram um jeito. Resolveu “premiar” o terceiro goleiro. Afinal, qual a chance de ele jogar? Só se o titular cometer seguidas falhas no Paulistão e seu reserva imediato não estiver preparado para assumir o posto. E não é que isso aconteceu em 2012? Pois bem, a mesma torcida do Corinthians que chama são-paulinos de “bambis” e pressionou Emerson Sheik por postar foto dando selinho em um amigo vibrou com seu camisa 24, o ex-terceiro goleiro Cássio, salvar o time da eliminação na Libertadores ao defender o chute do vascaíno Diego Souza.

É bem verdade que Cássio, que se tornou ídolo do clube muito em razão de sua atuação naquela Libertadores, se livrou do número na primeira oportunidade que teve. Mas duvido de que ele tenha sido alvo de bullying ou algum ato hostil só por causa disso. Portanto, seria muito simpático se os clubes deixassem de lado essa bobagem e ressuscitassem a camisa 24. E, mais do que isso, que aparecesse um jogador disposto a usá-la, sem imposição por causa de torneio. Alguém bem resolvido, que não precisa ficar evitando números para afirmar sua masculinidade.

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