(Reprodução/Pixabay) O último dia 2 de dezembro mais uma vez me convidou a uma pausa. É a data dedicada à advocacia criminal, ofício ao qual entreguei minha vida e que sigo exercendo com a mesma inquietação que me trouxe até aqui. Poucas atividades são tão incompreendidas quanto esta, embora tão essenciais para a preservação das liberdades. Com o tempo, compreendi que a defesa penal não se limita a representar acusados: ela se torna uma forma de impedir que a Justiça se afaste do que deve ser. Não consigo tratá-la apenas como profissão; para mim, é uma missão que define e orienta a própria existência. Na banca da defesa, aprendi que a voz do acusado não ecoa sozinha. É ali que se ergue, dia após dia, a baliza contra precipitações e arbitrariedades. Acompanhei, em tantos casos, o peso que recai sobre quem está à beira de perder a liberdade — e o peso maior ainda sobre quem tem o dever de protegê-la. Por isso, nunca enxerguei essa atividade como defesa de criminosos, mas como proteção da legalidade e do processo que sustenta qualquer julgamento justo. Com o tempo, descobri que o criminalista sério não busca absolvições impossíveis, nem milagres jurídicos. Trabalha com a realidade concreta, com o que as provas permitem e com o que a lei autoriza. A tarefa é resistir ao arbítrio quando ele se apresenta e, ao mesmo tempo, pedir com firmeza a redução de pena quando ela é devida. Minha lealdade sempre foi, acima de tudo, ao Direito e ao equilíbrio do sistema; qualquer defesa que se pretenda legítima precisa nascer da ética e do preparo, nunca da fantasia. Também compreendi que a advocacia criminal é o último refúgio da calma em meio às tempestades sociais. Vivemos tempos de julgamentos instantâneos, em que a pressa condena antes mesmo que se ouça. Nesses momentos, cabe ao criminalista sustentar, muitas vezes sozinho, a necessidade de prudência. Já participei de causas que despertaram desconfiança e controvérsia, entretanto o meu compromisso permaneceu o mesmo: garantir que a justiça seja aplicada com lucidez, mesmo quando o ambiente é adverso. As palavras de Evandro Lins e Silva — “Eu tenho o vício da defesa da liberdade” — sempre me acompanharam como uma espécie de lembrança silenciosa. Quem vive esse ofício entende a profundidade disso. Não se defende o crime, mas o direito de alguém ser julgado dentro dos limites da lei. A liberdade, para quem atua no penal, deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser uma responsabilidade diária, concreta e inadiável. É por isso que considero necessário reconhecer o trabalho de tantos colegas que enfrentam, como eu, as batalhas silenciosas da trincheira penal. A paz social depende da escuta, da contradição e do respeito às garantias constitucionais — pilares que defendemos todos os dias, mesmo quando ninguém está olhando. Celebrar a advocacia criminal não é exaltar profissionais, mas reafirmar a importância de um ofício que protege a sociedade de seus próprios impulsos e mantém viva a busca pela verdade e pela justiça.