(Carlos Nogueira/Arquivo AT) Entre os dias 27 e 30 de novembro, embarquei no navio porta-contêineres NC Brisa, da Norcoast, no Porto de Santos, para acompanhar de perto a rotina dos profissionais que fazem a navegação costeira funcionar diariamente. Assim como sempre procurei estar próxima da operação em terra, quis vivenciar pessoalmente o dia a dia dos colegas que trabalham embarcados e que sustentam uma parte essencial da logística brasileira. Assim que embarquei, vesti o macacão laranja, uniforme padrão utilizado por todos os tripulantes. A padronização não é apenas estética: reforça disciplina, segurança e o senso de equipe que a vida embarcada exige. A adaptação ao camarote - a suíte individual de cada tripulante - confortável e funcional, foi fácil, especialmente para dormir, sempre embalada pelo balanço do mar. Presenciar o prático auxiliando o comandante na saída do canal é uma experiência que impressiona. A bordo do navio, percebemos a real dimensão dessa navegação: um momento silencioso, concentrado, marcado por comunicação constante entre prático, comandante e timoneiro - responsável por operar o leme. Durante os quatro dias de viagem, acompanhei o funcionamento das principais áreas da embarcação. A sala de máquinas, comandada pelo chefe de máquinas, é gigante e barulhenta, funciona sem pausa e exige monitoramento contínuo. Bombas, motores, sistemas de resfriamento e alarmes compõem uma estrutura ativa 24 horas por dia. A precisão é indispensável, e qualquer ajuste precisa ser imediato e assertivo. No passadiço (ou ponte de comando), o comandante e o imediato conduziram o navio com atenção permanente à rota, às condições climáticas e ao tráfego marítimo. Foi possível observar manobras de aproximação, ajustes de velocidade e verificações de posicionamento que demonstram o compromisso aplicado a cada milha navegada. À noite, com as luzes do navio apagadas para aumentar a visibilidade externa, impressiona o quanto é possível enxergar o horizonte apenas com a iluminação natural. A convivência a bordo também inclui momentos importantes em grupo. As refeições - sempre muito bem preparadas pela cozinheira, a única mulher entre as 21 pessoas da tripulação - e a organização dos salões pelo taifeiro cumprem um papel fundamental no bem-estar da equipe. Compartilhar a mesa e dividir experiências fortalecem a união de profissionais que passam semanas longe de casa. Uma curiosidade: os salões são divididos por regras específicas. Em um deles, só se pode comer à paisana (sem uniforme); em outro, apenas com uniforme limpo; e no terceiro - conhecido como “sujinho” - são permitidos uniformes de trabalho. A academia e os momentos de futmesa ajudam a manter o equilíbrio físico e mental durante os períodos no mar. No trajeto, golfinhos acompanharam o navio sob uma lua crescente que iluminava o mar, e uma tartaruga marinha solitária surgiu próxima à embarcação. Foi emocionante. A chegada a Paranaguá (PR), um dos portos mais importantes do País, encerrou a jornada e ampliou minha compreensão sobre a relevância da cabotagem. Essa modalidade, estratégica para o abastecimento de cargas ao longo dos 8 mil quilômetros da costa brasileira, depende de profissionais altamente qualificados e do comprometimento diário de quem vive a rotina embarcada. A experiência no NC Brisa permitiu enxergar de perto o que muitas vezes passa despercebido: a navegação é uma engrenagem complexa, movida por equipes especializadas e sustentada por disciplina, técnica e resiliência. A vida a bordo é desafiadora, mas revela um Brasil que trabalha silenciosamente para manter o comércio em movimento. Cada viagem é resultado do esforço de quem dedica sua carreira ao mar - e estar ao lado dessa tripulação reforçou a importância de valorizar os profissionais que mantêm a logística marítima ativa e eficiente no País.