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Quinta-feira

18 de Julho de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

VAR: Educação e boa vontade

Em apenas três rodadas, muitas são as queixas e críticas contra o sistema de árbitro de vídeo

Nem bem começou o Campeonato Brasileiro e a convivência entre o VAR (árbitro de vídeo), jogadores, técnicos e dirigentes se apresenta muito conturbada. O presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, prometeu até mesmo uma queixa formal à CBF contra a interpretação do árbitro mato-grossense Wagner Reway, num lance dentro da área, que, segundo o dirigente, foi claro para marcação de pênalti. O seu time acabou derrotado pelo Botafogo por 1 a 0.

Em apenas três rodadas, muitas são as queixas e críticas contra o VAR.

E vão muito além dos lances capitais, como gols e pênaltis. Envolvem a aplicação de cartões, intensidade de faltas e até jogadas pontuais. Qualquer dúvida e começa a pressão para que o árbitro reavalie a sua decisão, independentemente das circunstâncias e da sua proximidade em relação ao fato em si.

Antes de entrar no aspecto tecnológico, é importante ressaltar a falta de educação do jogador brasileiro. Via de regra, reclamam de tudo e de todos, e são mestres na prática do anti-jogo, principalmente quando estão vencendo a partida. São também artistas na arte da simulação, muitas vezes de forma acintosa e ridícula.

A comparação com o campeonato inglês, oficialmente Premier League, propicia a exata dimensão da diferença de educação e comportamento. Na Inglaterra, nenhum atleta, por exemplo, retém deliberadamente a bola nas mãos diante da marcação de uma falta contra o seu time. No Brasil, tal atitude é comum, sempre com a clara intenção de retardar a cobrança por parte do adversário.

Pode até parecer uma questão simples, mas, rigorosamente, não é. O Santos, hoje, imprime velocidade até na cobrança de lateral, para surpreender o adversário. No futebol inglês, as reclamações, quando ocorrem, são moderadas e respeitosas, ao contrário do Brasil, repleta de gestos, protestos verbais e até ofensas.

É claro que, nesse contexto, é preciso levar em consideração o nível cultural dos atletas e, principalmente, o profissionalismo. Além disso, há o rigor dos tribunais, implacáveis na manutenção da disciplina. Neymar é um bom exemplo de momento: foi punido por críticas a arbitragem de uma partida do PSG pela Liga dos Campeões e agora corre o risco de levar uma grande suspensão por agredir um torcedor após a perda da Copa da França.

No que se refere ao aspecto tecnológico, o mais curioso é que havia quase uma unanimidade em torno da utilização de recursos eletrônicos. A defesa do VAR era praticamente diária, assim como as críticas aos chamados “velhinhos da Fifa”, que não admitiam alterar as sagradas regras do futebol. Foi preciso aflorar a podridão da Federação Internacional para que viesse a evolução de práticas dentro e fora do campo.

No tênis, a tecnologia foi introduzida em 2005, quando a ITF (Federação Internacional de Tênis, em português) anunciou a implantação do sistema “Hawk Eye" (olho de falcão) para rastreamento da bola, evitando erros de arbitragem. Cada jogador tem direito a três desafios por set, diante de dúvidas em torno de decisões de juízes de cadeira e de linha.

No vôlei, a tecnologia também já é realidade, assim como basquete norte-americano (NBA) e em vários outros esportes daquele País.

Com certeza, é o início de uma nova etapa do futebol brasileiro, a adaptação demandará tempo de jogadores, árbitros e também jornalistas e críticos permanentes. Tem que ser irreversível, vivemos a era da tecnologia e da modernidade.

Será preciso, porém, boa vontade e educação. Perfeito o VAR não é, na medida em que muitas vezes a decisão será interpretativa.

Porém, é inaceitável negar sua validade e importância.

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