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Sábado

17 de Agosto de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Sintonia fina?

É importante ressaltar e reconhecer o bom momento do Santos, porém, vale alertar para que, fora do campo, também haja equilíbrio, bom senso e boa gestão

O assunto é inevitável, até por uma questão de justiça: o Santos é líder isolado do Campeonato Brasileiro, dois pontos à frente do super-Palmeiras e a cinco do poderoso Flamengo. Aliás, vale a curiosidade: de onde vem o dinheiro para o clube carioca realizar tantas contratações? A última foi de Filipe Luís, lateral-esquerdo titular da seleção brasileira.

Sim, ele estava sem contrato com o Atlético de Madrid, mas seu salário, ao optar pelo Rio ao invés de continuar na Europa, deve ser um dos maiores do futebol brasileiro. O Palmeiras também contratou mais dois na semana passada, ainda que de status inferior ao lateral esquerdo carioca.

Em síntese, não param de se reforçar, e assim mesmo o líder é o Santos, com seu elenco sem estrelas. De repente, de um time desacreditado, passou a protagonista. Se não é favorito (e não é), pelo menos está realizando uma grande campanha. São seis vitórias consecutivas, como visitante e na Vila Belmiro.

Neste domingo, na Vila Belmiro, venceu o Avaí por 3 a 1, perante um público superior a 12 mil. Fato raro, ainda que compreensível. Afinal, o jogo valia a liderança do Campeonato Brasileiro, uma chance que não aparecia há muito tempo.

Com isenção, o Santos não fez um grande jogo, assim como, surpreendentemente, o Avaí, apesar de ser último colocado, se mostrou um time competitivo e bem armado taticamente. Tanto é que até conseguiu empatar em 1 a 1, colocando o Santos sob pressão.

Sem dúvida, a equipe se mostrou ansiosa e sem o sentido coletivo que tem sido a sua característica, além da marcação forte na retomada de bola. Não fosse um lance fantástico de Soteldo, comprovando sua grande habilidade, talvez a situação se complicasse. Veio, depois, o gol imprevisível de Felipe Jonatan, e o Santos consolidou a vitória merecida.

Com certeza, a responsabilidade agora é maior. Tem no próximo domingo, na Vila Belmiro, contra o Goiás, a chance de confirmar a liderança e até ampliá-la, na medida em que Flamengo e Palmeiras, seguidores diretos, terão confrontos difíceis, contra o Bahia, em Salvador, e o Corinthians, em Itaquera, respectivamente.

Jorge Sampaoli, do alto de sua experiência, alertou que o importante é saber onde o time estará em novembro, reta final da competição. Absolutamente correto, a competição está rigorosamente em aberto, é quase impossível o Santos, por exemplo, manter a regularidade atual. O Palmeiras, aliás, com toda a sua força, é um bom exemplo. De repente, perdeu até do Ceará e está sob pressão na Libertadores, a exemplo do próprio Flamengo.

De qualquer forma, é importante ressaltar e reconhecer o bom momento do Santos. O torcedor tem todo o direito de comemorar e até de sonhar grande.

É preciso, porém, vale alertar novamente, que fora do campo também haja equilíbrio, bom senso e boa gestão. Qualquer ruído mais grave poderá comprometer a equipe. É inaceitável, por exemplo, que, de repente, a diretoria anuncie Paulo Autuori como novo diretor (ou gerente geral) de futebol, surpreendendo até mesmo o técnico Jorge Sampaoli.

Nada contra Paulo Autuori, um profissional sério e de grande currículo. Não dá para aceitar, entretanto, que o treinador sequer tenha sido participado, como admitiu em entrevista coletiva na semana passada. É até falta de respeito.

No mínimo, tinha que ter sido informado previamente, afinal, a contratação envolvia diretamente a área de futebol. Ficou claro, mais uma vez, que o presidente José Carlos Peres e Sampaoli não vivem sintonia fina, o que é uma pena e até preocupante.

P.S.: Imagino o drama que meu cético amigo, que me perseguiu muito por defender a capacidade de Jorge Sampaoli, está vivendo intimamente ao observar a liderança do Santos. Não que seja contrário ao time, pelo contrário, gosta muito do clube e torce pelo seu sucesso.

Quem sabe os fatos e os números do treinador estejam aperfeiçoando sua aguçada capacidade de análise. Ou, como bom enxadrista, esteja aguardando o momento para dizer: xeque-mate.

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