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Quinta-feira

17 de Outubro de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Sem rumo

Não há como dissociar a decepção com o futebol de nosso time nacional da falta de perspectiva e dúvida em relação ao futuro do País e, por extensão, de todos nós

Talvez, em parte, seja até reflexo da situação do País, literalmente sem rumo e refém de reações impulsivas e intempestivas. Quem alertou para a situação de “barco à deriva” não foi nenhum leigo ou inimigo ideológico, foi simplesmente Roberto Mangabeira Unger, carioca de 1947, quando o Rio de Janeiro ainda era o Distrito Federal. Além de filósofo, é teórico social e formado em direito em Harvard. Por muito anos, professor titular na mais famosa universidade americana.

Com certeza, os recentes fracassos, desde a goleada de 7 a 1 para a Alemanha, em pleno Brasil, até a fraca performance na Copa de 2018, são bons motivos para essa falta de empatia entre a Seleção Brasileira e o torcedor brasileiro. Porém, não há como dissociar a decepção com o futebol de nosso time nacional da falta de perspectiva e dúvida em relação ao futuro do País e, por extensão, de todos nós.

Mangabeira Unger, que fique claro, foi um crítico forte da corrupção do Governo Lula e até gosta do general Mourão, vice-presidente da República.

A questão da distância entre o torcedor e a Seleção surgiu após a estréia do Brasil na Copa América, na última sexta-feira (14), por 3 a 0, no Morumbi, contra a fraca Bolívia. Teve até vaia no intervalo, quando o placar ainda era de 0 a 0. Os gols vieram na fase final, até com ajuda do VAR, na marcação do pênalti que permitiu a abertura do placar.

Em nenhum momento, porém, o futebol apresentado empolgou as arquibancadas e os críticos. De pronto, vieram as justificativas de que São Paulo sempre foi fria e muito exigente com a seleção brasileira. Esse sentimento é verdadeiro e histórico e decorre também dos longos anos em que a CBF e a antiga CBD literalmente ignoravam São Paulo, sob todos os aspectos.

A realidade é que a vitória sobre a Bolívia não conquistou a confiança do torcedor. Poucos são os que efetivamente acreditam na equipe brasileira.

Nosso futebol parou no tempo, assim como o País. O lateral direito Daniel Alves, experiente, 36 anos, com grande vivência e jornadas vencedoras pelo mundo, concedeu uma longa entrevista coletiva, com duração de quase 50 minutos. Falou desde o preço absurdo dos ingressos até sobre o atual estágio do nosso futebol.

Foi feliz ao dizer que no Brasil, infelizmente, o futebol é quase uma religião e que o torcedor vive o clube e não a Seleção, a ponto de vaiar até um jogador pelo fato de ser de um time rival. O principal, porém, é que, segundo ele, o esporte evoluiu muito pelo mundo e o Brasil ficou para trás.

Foi certeiro e muito feliz no diagnóstico maior. O futebol, hoje, não é só qualidade técnica, vai muito além. Nem quem tem Messi consegue sobreviver e restabelecer o passado. O Uruguai passou por uma fase semelhante e hoje é uma grande seleção. A goleada na estreia, neste domingo (16), não deve ser creditada apenas ao talento de Cavani ou Suárez, ou ao fato do Equador ter jogado grande parte do tempo com 10 jogadores. O sucesso é coletivo e é resultado também de um longo trabalho e muito planejamento.

Impõe-se também destacar o nível da Colômbia, principalmente nos aspectos tático e coletivo. O individualismo inexiste, não tem popstar.

Sim, a Copa América está apenas começando, quem sabe o Brasil encontre seu rumo. Dentro e fora do campo.

P.S.: talvez em razão da paralisação do Campeonato Brasileiro, o meu cético amigo me poupou essa semana. Aliás, a mim e ao técnico Jorge Sampaoli. Porém, não me iludo: na volta da competição, se o Santos não se mantiver entre os primeiros, fatalmente voltarão as críticas e cobranças.

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