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Quinta-feira

18 de Julho de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Neymar e a criação do monstro

Atacante brasileiro agrediu um torcedor francês após a final da Copa da França na qual o PSG saiu derrotado

O ex-jogador Figo, craque que fez história na Seleção Portuguesa, no Barcelona e Real Madrid, foi muito feliz ao comentar, durante recente visita ao Rio de Janeiro, a nova confusão envolvendo Neymar. Em síntese, disse que compreendia, mas condenava, a reação do atacante brasileiro após a final da Copa da França, agredindo com um soco um torcedor do Rennes que o insultou no momento em que subia as escadas do Stade de France para a premiação como vice-campeão.

O ex-jogador luso, ao fundamentar a “compreensão do ato”, ponderou que é difícil, no momento de uma derrota importante, controlar emoções e reações, ainda mais diante de uma provocação ou ofensa. Porém, acrescentou que um craque da dimensão do brasileiro não pode, sob nenhuma hipótese, apresentar tal comportamento público, que compromete sua imagem, a carreira e seus sonhos, principalmente.

Um craque, efetivamente, não se faz apenas no campo. Ainda que seja um exemplo extremo, Pelé jamais se envolveu num episódio como esse. Com certeza, ao longo da fantástica jornada de atleta, sofreu de tudo, dentro e fora de jogo. Salvo melhor juízo, como dizem os juristas, me lembro somente de uma reação intempestiva contra torcedores, curiosamente num jogo na Vila Belmiro.

Ao ser vaiado pelos próprios torcedores, o Rei pegou a bola com as mãos e chutou-a contra a área reservada aos associados cativos, cuja característica sempre foi de impaciência, mesmo contra um time mágico como aquele do Santos. No mais, não me recordo de uma reação intempestiva ou agressiva, seja verbal ou física.

Valem nesse contexto outros exemplos: Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, curiosamente adversários constantes na luta do Brasileiro pela conquista da chamada Bola de Ouro, que, na prática, indica o melhor jogador do mundo.

Não se tem notícia pública de fatos que desabonem a carreira dos dois maiores jogadores hoje do futebol mundial. O argentino, aliás, prima pela discrição. O

português é mais público, mas muito para efeito de marketing, sem se envolver em qualquer ato que o comprometa ou provoque reação crítica mundial.

Do ponto de vista profissional, são um grande espelho para Neymar, que não hesita em ostentar, badalar e apresentar momentos de instabilidade emocional. Em termos de vida privada, nada a contestar, ainda que não traduza um modelo ideal para um ídolo mundial.

Com certeza, será punido mais uma vez. E com rigor, na Europa não há a complacência brasileira diante do desrespeito às normas esportivas dentro e fora do campo. Ainda recentemente foi julgado por críticas à arbitragem após a eliminação do PSG da Liga dos Campeões. Isso só comprova que Neymar reincide com frequência, a agressão ao torcedor do Rennes não se tratou de um fato isolado.

Está claro que a Neymar falta estrutura, orientação profissional, assessoria e até educação. Infelizmente para ele, o dinheiro não é capaz de transformar o homem e seu caráter. É preciso base, que vem de berço, independentemente da condição social.

Inegavelmente, por ser jovem, ainda poderá amadurecer e evoluir muito. Torço por isso.

Não quero que continue vivo na minha memória, ainda no início de carreira do jogador, o fato lamentável registrado em plena Vila Belmiro, quando se insurgiu, desrespeitou, humilhou e ofendeu o então técnico do Santos, Dorival Júnior, com o jogo em pleno andamento. O treinador, acertadamente, tentou puni-lo, mas, infelizmente, pela conivência e falta de autoridade dos dirigentes, acabou demitido.

Não saiu, porém, ileso. Renê Simões, técnico do adversário do Santos na oportunidade, concedeu uma das mais brilhantes entrevistas da história do futebol, ao seu estilo educado e culto. Foi, porém, contundente, alertando o mundo que era preciso “pôr um freio” no jogador, sob pena de todos estarem vivenciando a criação de “um monstro”.

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