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Quarta-feira

11 de Dezembro de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Mini-míssil aleatório

Sem exagero, principalmente pelas incertezas que cercavam o clube no início da temporada, tanto dentro como fora do campo, a campanha do Santos é surpreendente

Mais do que atingir o mesmo número do milionário Palmeiras, 26 pontos ganhos, chama a atenção a regularidade do Santos no Campeonato Brasileiro, tanto nas partidas em casa como na condição de visitante. O time venceu os últimos 5 jogos, sendo 3 no campo adversário, a saber: Ceará, Bahia e Botafogo. É a melhor equipe visitante até agora, com 72% de aproveitamento.

Não dá nem para desqualificar o Ceará, que sábado derrotou o Palmeiras por 2 a 0, com autoridade, derrubando o último invicto da competição e até instalando uma pequena crise no chamado “Verdão”. Afinal, a equipe foi eliminada da Copa do Brasil, no confronto contra o Inter de Porto Alegre, e, na sequência, perdeu para o Ceará, em Fortaleza.

Sem exagero, principalmente pelas incertezas que cercavam o clube no início da temporada, tanto dentro como fora do campo, a campanha do Santos é surpreendente. E não apenas pelos números. Inegavelmente, também pelas atuações e ousadia tática.

Nesse contexto, impossível e até desonesto, dissociar tal campanha do técnico Jorge Sampaoli, um argentino inquieto em todos os sentidos. Em campo, durante as partidas, não para um instante, com certeza deve terminar os jogos estafado pela movimentação contínua na área técnica e pela orientação constante aos jogadores.

Em alguns momentos, é difícil até compreender (e aceitar) suas opções táticas. Contra o Botafogo, por exemplo, de repente, novamente optou por três zagueiros, improvisando Lucas Veríssimo no setor. E nem mesmo quando esse jogador foi expulso acertadamente, deixando o Santos com um atleta a menos, alterou de pronto sua equipe.

Qualquer outro treinador, principalmente brasileiro, a título de “recompor o sistema de defesa”, de imediato teria efetuado uma substituição conservadora, colocando mais um zagueiro em campo. Sampaoli, porém, recuou Vitor Ferraz e manteve o plano ofensivo. Mais tarde, também em razão da expulsão de um jogador do Botafogo, tirou o lateral e colocou Jean Mota, na expectativa de conseguir a vitória.

Apesar do torneio estar apenas na 11ª rodada, parece claro que o Santos também adquiriu a condição de protagonista. Atenção: não de favorito, até pela força de Palmeiras, Flamengo e Grêmio, dentre outros.

Nas próximas rodadas, com dois jogos em casa, contra Avaí, último colocado, e Goiás, tem até boas chances de se isolar na liderança da competição. Envolvido também na Libertadores e com o peso da eliminação da Copa do Brasil, além da derrota para o Ceará, o Palmeiras parece abalado, o que pode facilitar a missão do Santos.

Jorge Sampaoli, do alto de sua experiência internacional, procurou controlar a euforia após a vitória contra o Botafogo. Se mostrou feliz e otimista, mas destacou que o importante é chegar em novembro em boa situação, mês em que o torneio, com certeza, estará em sua fase decisiva.

Talvez a única dúvida do Santos seja a limitação numérica de seu elenco, assim como a falta de pelo menos um craque consagrado e incontestável. A homogeneidade do grupo, porém, pode compensar e levar o Santos à disputa do título.

Por fim, vale destacar o gol de Marinho, aos 29 minutos do segundo tempo, garantindo a vitória. Foi, sem dúvida, um dos mais bonitos do Campeonato Brasileiro até agora. Um “mini-míssil aleatório", ”conforme denominou o próprio jogador.

E foi mesmo! Um chute indefensável, fruto de força física, talento e coragem de tentar o gol, mesmo sob pressão. Talvez, involuntariamente, o jogador tenha até definido o atual momento do time.

P.S.: Com certeza, o cético amigo que, com frequência, contesta nossa admiração por Jorge Sampaoli, deve estar em profunda reflexão. Talvez ainda não tenha se convencido, mas, com certeza, até por sua experiência e qualidade jornalista, sabe que, com sempre definiu o famoso economista Delfim Netto (aquele do Milagre Brasileiro), “os números não se contestam”.

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