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Sexta-feira

19 de Abril de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Há, sim, o que comemorar

A partida entre Santos e Corinthians apresentou um panorama claro e incontestável; na linguagem do boleiro, foi o confronto de um time só

Em termos de competição, é óbvio que o que vale é a classificação. Por esse ângulo, nada a contestar em relação ao resultado do jogo dessa segunda-feira, no Pacaembu. Deu Corinthians e ponto final. Pouco importa agora se o Santos desperdiçou dois pênaltis ou se a trave ajudou, nada vai mudar a história.

Não se deve, porém, analisar somente por esse ângulo simplista, impõe-se um foco mais amplo e profundo. O jogo, com certeza, a grande maioria dos torcedores viu, até mesmo palmeirenses, curtindo sua frustração, e tricolores, analisando as duas equipes para a futura final.

A partida apresentou um panorama claro e incontestável. Na linguagem do boleiro, foi o confronto de um time só. Muitos são os números e detalhes a comprovar tal quadro. Destaquemos apenas um: o goleiro Cássio e suas defesas, com as mãos e pés. Fez pelo menos seis, impedindo que o Santos transformasse em gols uma superioridade e domínio incontestáveis.

Por esse outro ângulo, uma pena a eliminação. Ou injustiça, pelos 90 minutos do Pacaembu. Vale, porém, lembrar o ex-jogador e técnico Evaristo de Macedo, que disse certa vez: “No futebol, não há justiça”.

Verdade absoluta! Se não fosse, o Santos teria vencido.

O mais importante agora, com isenção e equilíbrio, é avaliar o trabalho realizado. Por esse ângulo, sem dúvida bem mais amplo e essencial, o sucesso é inegável. E passa, sem exagero, pelo técnico Jorge Sampaoli, o grande responsável pela transformação do time e até do clube.

A ação de Sampaoli extrapolou o próprio Santos, na prática já prestou também uma grande contribuição ao próprio futebol brasileiro, nos levando a acreditar que é possível sair da “mesmice” que há muito caracteriza nosso cenário tático.

Sampaoli é um treinador apaixonado pelo futebol coletivo e intenso, um profissional que vive a equipe 24 horas e não hesita em ousar ou inovar. Não joga pelo resultado puro e simples, busca, sim, sempre o melhor, principalmente em termos de performance.

Sua autoridade, pela vivência, experiência e carreira, é aceita com naturalidade, basta observar e ouvir mais atentamente os próprios jogadores em suas entrevistas. A sinergia é patente.

Nesse contexto, apesar da eliminação, é também muito importante a perspectiva. Não há como não ser otimista. Sampaoli e seu trabalho projetaram um novo futuro para o Santos. É preciso, entretanto, acreditar, apoiar e até reforçar a equipe. O Campeonato Brasileiro e a Copa do Brasil exigirão muito mais, sem elenco e sem maior qualidade todo o trabalho poderá ser perdido.

Nesse contexto, é importante ajustar a performance da diretoria. É inadmissível persistir o quadro de incerteza financeira, que provocou atrasos de salários e direitos de imagem. Até nessa área Sampaoli deu exemplo, quando ameaçou devolver seus ganhos, se a diretoria não quitasse as dívidas com os jogadores.

Foi, sem dúvida, uma humilhação para o clube, mas o efeito interno foi positivo. E uniu ainda mais o grupo.

Já na madrugada dessa terça-feira (9), em uma entrevista na saída do Pacaembu, Victor Ferraz demonstrou o espírito do grupo. Logo ele que perdeu o pênalti que eliminou o Santos. Na conversa com os jornalistas, chorando, revelou que tem um filho de 1,5 ano que lhe exigia muito fisicamente todas as noites, após jogos e longas viagens.

Ao perceber que o cansaço poderia refletir na sua performance em campo, pediu que a mulher viajasse com o filho para a Paraíba, até o final do campeonato. Um exemplo raro, hoje, de profissionalismo e respeito ao clube.

O mais curioso: Victor Ferraz só está no Santos hoje porque Sampaoli, ainda durante a negociação com o Santos, ligou para ele e pediu a sua permanência na Vila Belmiro. Na ocasião, estava sendo cedido ao São Paulo.

Em síntese: há, sim, o que comemorar.

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