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Segunda-feira

14 de Outubro de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Grande risco

Após faltar em apresentação do PSG, Neymar entra em mais uma polêmica. Onde o craque vai jogar na temporada 2019-2020?

A declaração soa como afronta. Ou provocação clara. Talvez até uma mensagem indireta de que não pretende continuar em Paris, apesar da beleza histórica da cidade. Ao ser questionado sobre o grande momento de sua carreira, durante um evento de seu instituto em Praia Grande, na semana passada, Neymar elegeu a goleada de seu ex-time, o Barcelona, sobre a sua atual equipe, o PSG, por 6 a 1, pelas oitavas de final da Liga dos Campeões de 2016/2017.

A mais importante revista francesa, “France Football”, qualificou a declaração como “um novo terremoto”, e diz ser impossível que ela não tenha sido rigorosamente calculada. Como em um jogo de xadrez de alto nível, em que cada movimento é estudado e feito com um claro objetivo final, o xeque-mate. Em persa, significa que o “Rei está morto”, peça principal no confronto. Nessas ocasiões, o adversário estende a mão aceitando a derrota ou simplesmente “deita o rei no tabuleiro”, num gesto simbólico de aceitação da derrota.

O jornal Le Parisien qualificou a declaração do jogador como “uma das maiores humilhações do clube”, enquanto que o maior periódico francês, “Le Figaro”, falou em provocação, em “início de divórcio” e, o mais contundente, “falta de classe”.

Sem exceção, cabem todas as reações, levando em consideração também que o jogador não se apresentou na data programada em Paris, para reinício de treinamentos, e ainda postou um vídeo jogando futevôlei na praia com alguns de seus parças.

Talvez tudo possa ser sintetizado em falta de profissionalismo e de maturidade, além de desrespeito absoluto a um grande contrato em vigor. Neymar saiu do Barcelona pela chamada “porta dos fundos” e tudo indica que sairá da mesma forma do PSG, clube que investiu 222 milhões de euros (mais do que R$ 1 bilhão) na sua contratação.

A reação do presidente do PSG apenas diante da ausência na reapresentação foi dura e direta, com um recado claro de que não aceitará falta de comprometimento e comportamento de pop star.

Neymar parece que não entendeu. Ou melhor: fez “ouvidos de moucos”, frase muito usada por Jacques Lacan, um famoso psicanalista francês. Mouco, numa tradução simples, é sinônimo de surdo.

No dia a dia, é usado no sentido figurado, na linha do “se fazer de surdo” para não ouvir e assimilar certas coisas.

Qualquer atleta de nível razoável entenderia rapidamente o recado do dirigente francês, Nasser Al-Ghanim Khelaïfi, um ex-tenista e empresário catariano. É bom Neymar não brincar com o presidente do PSG, o meia francês Adrien Rabiot, craque do time e da seleção francesa, é um bom exemplo do que poderá acontecer a perdurar esse comportamento até infantil.

É importante Neymar lembrar que seu contrato vai até 2022, sem multa rescisória. Traduzindo: o clube poderá pedir o que quiser por sua transferência. O novo diretor de futebol do PSG, por coincidência um brasileiro, o ex-lateral Leonardo, do Flamengo e da seleção brasileira, já alertou que, de imediato, o jogador, responderá pela falta à reapresentação.

No contrato firmado com o atacante brasileiro, como é praxe no clube francês, há uma cláusula que envolve código de conduta. O desrespeito implica em sanções pecuniárias e até afastamento por tempo indeterminado.

Com Rabiot, ocorreu exatamente isso.

Neymar e seu staff precisam estar atentos ao futuro. Não há garantia sequer do retorno ao Barcelona, como é o seu desejo. Há pouco dias, o time espanhol anunciou a contratação de Griezmann por uma fábula. Além de torcedores, há até dirigentes da chamada La Liga (Confederação Nacional da Espanha) que são contra o seu retorno.

Existem ainda, é verdade, mercados fortes como os da Inglaterra e Itália, mas, com certeza, ambos estão atentos ao noticiário internacional e têm hoje plena consciência de que Neymar, apesar de sua inegável qualidade técnica, também representa um grande risco.

Dentro e, principalmente, fora do campo.

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