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Segunda-feira

24 de Junho de 2019

Marcio Calves

É jornalista e comentarista

Ídolo dos pés de barro

Neymar, em síntese, precisa também de ajuda e orientação pessoal e profissional; sua postura pública tem que ser digna de um verdadeiro ídolo, sem ostentação e exibicionismo

Pelo menos, por enquanto, não cabe entrar no mérito da questão. Qualquer opinião nesse momento pode caracterizar pré-julgamento, causando prejuízos irreparáveis. Impõe-se aguardar a devida apuração policial, que vai muito além das oitivas e até das perícias em larga escala.

É óbvio que o caso em questão é o de Neymar e sua parceira de aventura em plena Paris, cidade romântica, encantadora e histórica. Uma história digna de um filme, talvez de segunda categoria, a julgar pelos fatos, fotos e vídeos que sucederam a denúncia de estupro e elaboração de Boletim de Ocorrência.

Foram tantas as informações e imagens veiculadas nas diversas mídias que é difícil até saber o que é verdade e o que é fake news, ou fruto da criatividade, e até maldade, de alguns cujo interesse é apenas ironizar, tumultuar ou extravasar sua raiva contra o jogador ou contra a jovem modelo.

Na prática, pela condição de superstar de Neymar, o caso extrapolou os limites, envolvendo até outros profissionais e o pai do jogador, que teriam tentado viabilizar um acordo para abafar o caso.

Como se isso fosse possível!

Os prejuízos são claros e vão além da imagem. Uma grande empresa mundial teria até desistido de propor um contrato de patrocínio.

De concreto há o fato simples: houve o encontro, precedido de trocas de mensagens, promessas, provocações, convite para viagem a Paris e todas as despesas pagas. E, é claro, concordância mútua.

Numa análise simples, pelo enredo, ambos foram envolvidos pela emoção e pela atração. Em nenhum momento pensaram na possibilidade de repercussão mundial, como um rastilho de pólvora.

A priori, há a impressão de que o jogador caiu numa bela armadilha, previamente estudada e programada. Isso, porém, não o isenta de grande responsabilidade, na medida em que aceitou e contribuiu diretamente para viabilizar o tal encontro.

Sim, cada um tem do direito de fazer o que quer e pode, mas a Neymar, no mínimo, faltou cautela e consciência do que representa para o futebol e para os milhões de fãs pelo mundo. A condição de ídolo exige muito, desde comportamento exemplar até ética dentro e fora da área de atuação.

Muitos foram os ídolos que o tempo arrasou, justamente pelo comportamento inadequado. Por coincidência, todos ganhando milhões de dólares e fama mundial, sem direito até a privacidade, pela curiosidade e histeria que despertaram ou ainda despertam.

A história recente registra vários casos, como o boxeador Mike Tyson e Tiger Woods, que foi durante muito tempo a grande estrela do golfe mundial. Por coincidência, ambos enfrentaram graves problemas por comportamento público inadequado. Tyson destruiu sua vida, fortuna e acabou preso justamente sob acusação de estupro, vivendo hoje de aparições em programas de humor ou de lutas de diversão pública. Em uma noite, em sua carreira oficial, chegou a ganhar mais de US$ 200 milhões.

A ele, é inegável, faltavam estrutura básica (família e educação) e, principalmente, alguém que o dominasse fora dos ringues.

Tiger Woods, que respondeu por 14 traições, além de internação para tratamento psiquiátrico, teve que pagar mais de US$ 200 milhões para a mulher, além de bens imóveis, como uma linda mansão na Flórida, no valor de US$ 8 milhões. Sem contar o abalo moral em torno da linda carreira. Atualmente, está novamente na ativa, demonstrando seu talento na prática do golfe.

Do outro lado da moeda estão, dentre outros, gênios e ídolos como Michael Jordan e Lionel Messi. Ambos, apesar da fama e dinheiro, sabem manter a privacidade. Por isso são respeitados e continuam idolatrados.

Há ainda o craque português Cristiano Ronaldo, considerado melhor jogador do mundo por várias vezes. Já foi também acusado de estupro, por duas vezes, mas, em ambos os casos, provavelmente em razão de acordos, conseguiu manter sua imagem mundial.

Parece rigorosamente claro que a Neymar falta assessoria, além de maturidade. Sem dúvida, salvo exceções, via de regra o pai é sempre o melhor conselheiro, mas isso não é suficiente para gerir a carreira de um atleta como Neymar.

O suiço Roger Federer, para muitos o melhor de todos os tempos, talvez seja o melhor exemplo para se definir um ídolo. É reservado, educado, adepto claro da cultura familiar e tem um comportamento público irretocável. Aliás, um dos seus principais assessores é um brasileiro, extremamente profissional.

Neymar, em síntese, precisa também de ajuda e orientação pessoal e profissional. Sua postura pública tem que ser digna de um verdadeiro ídolo, sem ostentação e exibicionismo. Necessita também crescer como pessoa, assim como rever valores, princípios e muitas amizades.

Ainda nesse domingo (9) foi novamente veiculada nas mídias sociais a célebre entrevista do técnico Renê Simões, após um jogo na Vila Belmiro em que o jogador humilhou o treinador Dorival Júnior. Renê Simões alertou sobre necessidade de “se educar esse rapaz ou nós vamos criar um monstro... nós estamos criando um monstro no futebol brasileiro”, se providências sérias não fossem adotadas para domar o jogador.

Um aforismo bíblico fala do ídolo dos pés de barro, após um sonho do imperador da Babilônia, Nabucodonosor.

Que sirva de alerta!

P.S.: o cético amigo que vive a me provocar sobre minha convicção em torno da qualidade do técnico Jorge Sampaoli, após a eliminação do Santos da Copa do Brasil, para o Atlético Mineiro, voltou ao ataque. Ao seu estilo duro e objetivo, disparou: “Três goleadas e três eliminações (Campeonato Paulista, Sul-Americana e Copa do Brasil)”.

A ele peço mais paciência e menos imediatismo e que leve em consideração pelo menos o fato de que o Santos, apesar das eliminações e derrotas contundentes, talvez seja o último remanescente do verdadeiro futebol brasileiro.

E que, apesar de tudo, é vice-lider do Campeonato Brasileiro, depois da bela vitória desse domingo contra o mesmo Atlético Mineiro, por 3 a 1, na Vila Belmiro.

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