(Cesar Greco/ Palmeiras) Há jogos que entram para a história e comprovam que, no futebol, quase tudo é possível. Um deles, sem dúvida, ocorreu quinta-feira, no Allianz Parque, onde o Palmeiras venceu a LDU pela Libertadores e se classificou para a grande final, que, a priori, ocorrerá em Lima, no Peru. Era preciso vencer por uma diferença de quatro gols para se classificar diretamente, sem disputa de pênaltis. E o Palmeiras conseguiu o que para muitos era impossível. Uma partida épica, repleta de emoções, como tem que ser o bom futebol, fugindo da pasmaceira que caracteriza a maioria das partidas. Méritos de quem? Dos jogadores, sem dúvida, eles foram os principais protagonistas, porém, impossível não destacar a importância do técnico Abel Ferreira, que, por coincidência, comemorava cinco anos no cargo. Em atividade, é o treinador mais longevo no Brasil, seguido por Jorge Castilho, do Maringá, e Rogério Ceni, do Bahia. O recorde é de Amadeu Teixeira, do América de Manaus, que exerceu a função por 53 anos, de 1955 a 2008. Uma curiosidade: durante esse período, também foi presidente do clube, garantindo sua permanência. O trabalho de Abel Ferreira começou logo após a derrota em Quito, por 3 a 0, quando lembrou que o Palmeiras não tinha sido o primeiro time a sofrer com a altitude de mais de 2.500 metros. Impossível negar que jogar em tais condições é muito difícil, influi na capacidade física e também na velocidade da bola. De pronto, destacou: “Jogar 90 minutos no Allianz Parque é muito tempo”. Foi um recado para o adversário e para seus atletas. E tinha razão, o gramado sintético seria um importante aliado, tanto é que o técnico da LDU, o brasileiro Tiago Nunes, depois da derrota, disse que o campo mais parecia um “pátio do colégio”. Depois, admitiu que tecnicamente seu time foi completamente superado e que a derrota foi merecida. Além do aspecto motivacional, começou a planejar a escalação e a parte tática, que teve por base a pressão permanente, sufocando o adversário. Em termos de time, mostrando sua visão estratégica, escalou Allan, de 21 anos, na lateral direita. E esse jogador acabou se tornando fundamental, quando o time vencia por 3 a 0 e precisava de mais um gol para evitar os pênaltis. Coragem, visão e ousadia, atributos raros entre os profissionais brasileiros. Numa linda jogada individual, Allan literalmente se livrou de três jogadores e sofreu o pênalti que garantiria o quarto gol. Importante: a cobrança ficou a cargo de Raphael Veiga, um jogador que havia entrado apenas no segundo tempo, em mais uma decisão de Abel Ferreira. Outro detalhe: pouco antes, ele mesmo havia feito o terceiro gol, numa bonita jogada em velocidade. Assim, não há como ignorar o mérito de Abel Ferreira, que desde que chegou tem acrescentado muito ao futebol brasileiro. É diferenciado como homem e como profissional, não abre mão da sinceridade, da honestidade e não hesita em contestar jornalistas e até a torcida. Assim que o jogo acabou, comemorou com seus parceiros de comissão, se ajoelhou e chorou. Na coletiva pós-jogo, lembrou de sua mágoa com parte da torcida, que o hostilizou depois que o Palmeiras foi eliminado pelo Corinthians nas oitavas de final da Copa do Brasil. Abel é um dos poucos técnicos do Brasil que sabem interpretar e aprender com as derrotas. A grande vitória sobre a LDU comprovou mais uma vez sua competência, não perdendo tempo com lamentos ou justificativas sem um mínimo de fundamento. Será, sem dúvida, um grande trunfo do Palmeiras para a final da Libertadores contra o Flamengo. No recente encontro pelo Campeonato Brasileiro, o clube carioca venceu por 3 a 2, no Maracanã. Em 2021, ambos fizeram a final da Libertadores e o Palmeiras venceu, no Uruguai, por 2 a 1, gol de Deyverson, num lance que envolveu Andreas Pereira, hoje no time de Abel Ferreira. Os dois clubes ganharam três vezes a competição e buscam o tetra, superando São Paulo, Santos e Grêmio. Os dois são os melhores do Brasil e simultaneamente disputam o título de campeão brasileiro. Têm dinheiro, elenco e dois grandes treinadores. Abel pode fazer a diferença.