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Terça-feira

25 de Junho de 2019

Kenny Mendes

É deputado estadual (Progressistas). Professor universitário há mais de 20 anos, estreou na vida pública em 2013 como vereador em Santos. Foi reeleito em 2016 com a maior votação da história da Câmara Municipal - na ocasião, obteve 24.765 votos.

Passageiro não é carga

Pela atual configuração do Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI) as vidas humanas acabam equivalendo a mercadorias transportadas em contêineres

Mesmo tendo a paisagem deslumbrante da Serra do Mar ao redor, realizar o trajeto entre a Baixada Santista e a capital paulista pode ser uma experiência desgastante – e perigosa. Inaugurada em 2002, a pista descendente (sul) da Rodovia dos Imigrantes permanece reservada para o tráfego exclusivo de veículos leves, como carros e motos. Os ônibus, sejam fretados ou de linhas comerciais, são obrigados a usar a Via Anchieta. Aí está o problema.

Passageiro não é carga. Só que pela atual configuração do Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI) as vidas humanas acabam equivalendo a mercadorias transportadas em contêineres. Forçados a utilizar a Anchieta, os ônibus – que diariamente transportam trabalhadores, estudantes e turistas – dividem espaço com caminhões e carretas em uma estrada com aclives acentuados e curvas perigosas. É preocupante.

Usei a tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para apelar ao governador João Doria (PSDB) que essa situação seja revista. Basicamente, defendo que a Imigrantes seja usada por veículos de passageiros (motos, carros, vans e ônibus), enquanto a Anchieta fique restrita aos caminhões. Pretendo levar a discussão para a Comissão de Assuntos Metropolitanos e Municipais da Casa, do qual sou membro efetivo. 

Trata-se de uma questão de bom senso. A medida, por sinal, é defendida não apenas pelos passageiros e motoristas (é bom lembrar que, dependendo da operação implantada no SAI, os automóveis que sobem ou descem a serra têm somente a Anchieta como opção).  Os caminhoneiros também veem com bons olhos a possibilidade, pois, sem a presença de veículos leves, poderão usar as duas pistas existentes: os caminhões com carga seguem pela direita; os vazios, a da esquerda (mais rápida).

Essa luta não é nova. Desde 2003, quando ainda era vereador em Santos, tivemos a oportunidade de realizar várias audiências públicas sobre o assunto. A Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) justificava que a alteração não seria possível pelo fato de a pista nova da Imigrantes (descendente) ser muito inclinada, fruto de um erro do projeto da via, impossibilitando sua utilização por veículos pesados. Estudos técnicos apontam, no entanto, que apenas os ônibus fabricados até 1995, que ainda não possuíam a tecnologia ABS (sistema antibloqueio de frenagem), estariam impedidos de trafegar por ali. 

Me lembro que, diante do impasse, apresentei à época uma proposta alternativa à Artesp: a liberação da atual pista descendente (nova) da Imigrantes para a subida de veículos com passageiros e a utilização da pista ascendente (antiga) para a descida. Após a sugestão, a agência encerrou o diálogo – talvez porque não tivesse mais argumentos. Seria adequado a agência repensar a questão: o Sistema Anchieta-Imigrantes precisa ser redefinido antes que alguma tragédia ocorra. Não basta contar com a sorte.

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