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Quinta-feira

4 de Junho de 2020

Kenny Mendes

É deputado estadual (Progressistas). Professor universitário há mais de 20 anos, estreou na vida pública em 2013 como vereador em Santos. Foi reeleito em 2016 com a maior votação da história da Câmara Municipal - na ocasião, obteve 24.765 votos.

Levando o vírus pra passear

A antecipação dos feriados de Corpus Christi e da Consciência Negra, decretado na Capital, mais a mudança do feriado de 9 de julho para a próxima segunda (25), originaram um megaferiado de seis dias em plena pandemia da Covid-19

Folga, sol e praia. A junção desses elementos é convidativa para um passeio pelo litoral... mas não enquanto o País enfrenta um vírus altamente contagioso que já tirou a vida de mais de 20 mil brasileiros. Pois o que deveria ser considerado impensável se tornou realidade.

A antecipação dos feriados de Corpus Christi para quarta-feira (20) e da Consciência Negra para quinta (21), decretado na Capital, mais a mudança do feriado de 9 de julho (Revolução Constitucionalista de 1932) para a próxima segunda-feira (25), originaram um megaferiado de seis dias em plena pandemia da Covid-19. O qual, como já percebemos, ocasionou a presença de um grande número de turistas à Baixada Santista.

Desde que foi aventada, anunciei ser absolutamente contrário à ideia. Na análise que avançou a madrugada desta sexta-feira na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) sobre a antecipação do 9 de Julho – em que votei contra – expliquei meu posicionamento: as cidades litorâneas e as turísticas do Interior ficam ainda mais vulneráveis à propagação do coronavírus com a presença de um número maior de possíveis transmissores. Simples assim.

Não foi por acaso que o chefe do Executivo de São Sebastião, Felipe Augusto (PSDB), classificou a medida como ‘bomba biológica’. Segundo ele, que é do partido do governador João Doria, a estimativa é de que haja um aumento mínimo de 30% dos casos na cidade – número já registrado nos últimos feriados, de menor duração. O temor é compartilhado pelos demais prefeitos da Baixada Santista, Litoral Norte, Litoral Sul e do Vale do Ribeira. Se o índice se confirmar, pode haver colapso imediato da rede de saúde. Com em média 80% dos leitos ocupados, os municípios do Litoral sofreriam um impacto trágico.

Um outro fator: nossas cidades, turísticas por vocação, dependem dos feriados futuros, nas suas datas originais, para tentar recuperar as perdas da quarentena e garantir empregos quando tudo passar. Se a moda da antecipação pegar, em breve estaremos ‘comemorando’ o Natal no período das festas juninas. Algo sem sentido.

Uma liminar da Justiça determinou a suspensão dos bloqueios de estradas que dão acesso a municípios do Litoral Sul, conforme determinação do Ministério Público, para o superferiado. Curioso que bloquear o pedágio do Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI), porta de entrada para os municípios litorâneos paulistas, nunca é cogitado. Nem mesmo à noite, permanecendo aberto apenas para caminhões e viaturas de serviços públicos, como já sugerimos. O pedágio parece ser considerado um serviço realmente ‘essencial’.

Infelizmente fomos voto vencido na Alesp. Ok. Faz parte da democracia. Enquanto representante da Baixada Santista, não poderia compactuar com a medida. Torço, agora, para que todos os prognósticos estejam errados e que não tenhamos mais vítimas da doença na região resultantes de uma ação bem intencionada, mas totalmente equivocada.

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