Júnior Bozzella

É bacharel em Direito, empresário, deputado federal (PSL/SP), presidente do diretório estadual do PSL no Estado de São Paulo e vice-presidente Nacional do partido.

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O caos e a transparência zero

O combate a uma doença como a Covid-19, que até o momento não tem cura e nem vacina, depende hoje quase que exclusivamente do comportamento social das pessoas

Desde a última sexta-feira (5) o Ministério da Saúde mudou a maneira como são informados os números de casos e óbitos pela Covid-19 no Brasil.

Não estamos falando de uma mudança no layout para facilitar o acesso ou dar mais clareza à divulgação das informações, ao contrário disso, o governo decidiu omitir o número de óbitos registrados no país do sistema de informação.

No momento em que o Brasil se aproxima de 700 mil casos e 40 mil mortos o governo federal decidiu que a melhor estratégia de enfrentamento à pandemia era simplesmente não informar mais quantas pessoas morrem diariamente no Brasil. O Palácio do Planalto resolveu adotar o velho ditado popular de que o que os olhos não veem o coração não sente. Assim, de acordo com a lógica do governo, se a população, a imprensa, os governos estaduais e municipais e o mundo não sabem como está o real cenário de propagação da doença no Brasil, as coisas “voltariam ao normal”. Ele só esqueceu de observar que os números hoje são as nossas principais armas para combater o coronavírus. São com base nos dados diários que novos leitos são abertos, novos profissionais remanejados, medidas de isolamento são impostas, ou seja, omitir esses dados é como largar os brasileiros em meio a uma guerra de olhos vendados, sem condições de se defender ou identificar em qual direção seguir. O resultado de deixar o povo brasileiro no meio da pandemia às cegas não é difícil de ser previsto. Milhares de vidas serão perdidas. O negacionismo do presidente diante da pandemia que está dizimando a população é algo catastrófico, para não dizer criminoso. 

O combate a uma doença como a Covid-19, que até o momento não tem cura e nem vacina, depende hoje quase que exclusivamente do comportamento social das pessoas. Ao redor do mundo, em democracias consolidadas, a informação foi utilizada como a principal arma de combate à doença. 

Na Europa os quatro países mais atingidos pelo coronavírus, Reino Unido, Espanha, Itália e França (em ordem decrescente de número de mortos), publicam seus dados à tarde.

Nos Estados Unidos, apesar de não serem feitos anúncios diários pela Casa Branca, outras plataformas como o jornal The New York Times e a Universidade Johns Hopkins atualizam diariamente os números de casos e mortes. O Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês), órgão do governo, atualiza números em seu site constantemente, sem boletins públicos.

Entretanto alguns governadores como Andrew Cuomo, de Nova York, cidade que já foi epicentro da doença no mundo, têm optado por divulgar dados diários, caso do democrata

Na América do Sul, a nossa vizinha Argentina, por exemplo,  mantém, desde o início da quarentena, entrevistas coletivas todas as manhãs, quando são apresentados os números de infectados e mortos pelo coronavírus nas últimas 24 horas.

Aqui no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro parece preferir figurar ao lado de nomes como Kim Jong-un (Coreia do Norte), Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia) e Nicolas Maduro (Venezuela) na triste lista de governos autoritários que vem escondendo ou maquiando os números sobre a Covid-19 em seus países. 

A decisão do Ministério da Saúde de deixar de divulgar os dados consolidados representa um prejuízo para o país a nível internacional, uma vez que as notificações de casos e óbitos continuarão a serem feitas a nível municipal e estadual.

Transparência é prerrogativa de qualquer democracia. A falta de transparência em um momento como esse, em que a informação é a principal arma que a população tem para combater a doença que está em uma crescente matando milhares de pessoas diariamente no Brasil, não é apenas perigoso, é crime de responsabilidade. 

Nós, parlamentares, não permitiremos que a população brasileira seja largada às cegas no meio de um campo de batalha. O acesso às informações sobre a Covid-19 é direito do povo e é a principal arma que ele tem para lutar contra o coronavírus. Se preciso for nós apelaremos à Justiça, e caso o governo insista em não rever essa decisão de omitir a divulgação dos números, é na Justiça que responderá por isso.

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