(Reprodução/X) Volto ao assunto esta semana e mais tantas quantas vezes forem necessárias. A partida inesperada e precoce do cantor mineiro Lô Borges no último dia 2 provocou uma comoção nacional poucas vezes vista. O mais tocante de todas as homenagens foi algo raro e extremamente significativo: os fãs e o público se voltaram imediatamente para a sua obra. Lô Borges – assim como seus colegas do Clube da Esquina – sempre teve uma trajetória discreta em relação à vida pessoal. Não era do tipo de fazer oba-oba com os seus amores, família e amigos. O que sempre esteve à frente sempre foram mesmo as suas canções, os seus álbuns. Assim que a notícia de sua morte se espalhou, uma verdadeira multidão correu à famosa esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, ainda na noite do dia 3, para se despedir e homenagear o cantor e compositor. Em um clima de muita comoção, amigos e admiradores do artista cantaram e tocaram durante várias horas as suas canções. Desde as 18 horas, pessoas chegavam de todas as partes para acompanhar o evento, em um pequeno palco montado sob uma tenda. Uma verdadeira fila de músicos fez questão de passar por lá para se apresentar e homenagear o icônico artista. Durante todo o dia, centenas de pessoas estiveram no local, que ficou conhecido mundialmente como o Clube da Esquina, graças a músicos como Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta, Tavinho Moura e o próprio Lô Borges, entre muitos outros, para deixar flores e relembrar suas canções. O evento foi organizado espontaneamente por vários coletivos de Belo Horizonte. Foi colocada na famosa esquina uma foto em preto e branco de Lô ao lado das placas que já existem por lá demarcando o lugar. E, em uma janela lateral, foi pendurada uma faixa amarela com os dizeres: “Celebramos a vida e a arte de Lô Borges”. O perfil no Spotify do cantor explodiu. Partiu em poucos dias de 500 mil para mais de um milhão de ouvintes. Uma pesquisa Quaest apontou que cerca de quatro milhões de brasileiros foram mobilizados nas redes em torno de sua morte. Mais da metade das menções, segundo o levantamento, foram para as canções de Lô Borges. Vários desses posts se voltaram para a comovente homenagem na esquina. O instituto levantou também as canções mais lembradas. Trem Azul ganhou disparado, seguida de Um Girassol da Cor dos seus Cabelos, Paisagem da Janela, Tudo que Você Podia Ser e Cravo e Canela. Apesar das canções de maior sucesso terem sido lançadas nas décadas de 70 e 80, vale lembrar que Lô Borges nunca parou de produzir. De 2019 para cá, ele lançou inúmeros álbuns e ainda deixou outros quatro inéditos. Ao passar a régua e fechar a conta de sua vida e obra, um fato irrefutável fica bem claro em todos os dados levantados nestes tempos de algoritmos. O Brasil perdeu um grande artista, um criador insubstituível e não uma celebridade. Para o grande público, de Lô Borges o que mais se sabe, e ficará guardado para sempre, é mesmo a sua obra magnífica.