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Segunda-feira

22 de Julho de 2019

José Luiz Tahan

Livreiro da Realejo, editor, ilustrador e idealizador do festival Tarrafa Literária. Nasci em Santos em 1971, comecei como livreiro na mítica Livraria Iporanga aos 18 anos. Em 2001 criei a Realejo Livros e na sequência evoluímos para sermos editores. E, em 2009, estreamos o festival Tarrafa Literária. A parte desses trabalhos todos mantenho o desenho e ilustrações na minha vida. E um futebolzinho também.

Dos livros não lidos

A pilha só aumenta deles, os não lidos. Como resolver essa angústia?

Dos livros não lidos.

 

Dentro dos trajetos caseiros, quando saímos da sala indo pro quarto, do quarto para a cozinha, da cozinha para o banheiro, em algum momento encaramos rapidamente eles, os livros não lidos.

E eles nos encaram de volta, sempre. Livros não lidos têm os olhos em nós, firmes,à espera do momento em que sairão do esquecimento, ou do vazio. O historiador do humor Elias Thomé Saliba cunhou a frase: “Um livro só existe quando aberto”.

Os livros que já lemos repousam serenos na estante, e nós os conhecemos, temos relação com eles. Quando terminamos e fechamos, temos o sabor da experiência, ou do fracasso em perceber tudo o que está nas entrelinhas, nos labirintos criados pelo autor que nos conduziu por semanas, por vezes muitas semanas.

Mas, os não lidos merecem nossa atenção. Ficam largados, mas, na maioria das vezes, não esquecidos. Eles são as nossas missões por fazer, nossos planos de evolução, nossas ambições. E também há os livros interrompidos na sua leitura, e os definitivamente abandonados por conta de não nos entrosarmos com o estilo ou o autor, e eles deixam marcas também em nós, uma ponta de frustração, de um jogo perdido.

E aqui vai uma comparação irresistível com os e-books, que estão silenciosamente arquivados naqueles frios e-readers. Os e-books não lidos dormen o sono dos inocentes esperando que nós, leitores, tenhamos a disciplina de buscar cada texto em seus cantinhos virtuais, suas esquinas.

A cobrança dos e-books é nula. A dos livros de papel é física, tátil.

Isto não é uma crítica a quem gosta de ler na tela. Opa, inclusive, é este o caso aqui e agora, mas, sim, a da nossa relação com os objetos, a nossa relação e os ganchos da nossa memória, que são ativados de forma diferente em cada caso.

Bem, deixo aqui um abraço e um agradecimento para quem investiu seu tempo até aqui, vou continuar a ler o livro “Alguns Humanos”, do Gustavo Pacheco, Editora Tinta da China. Ele não para de me cobrar, ele o livro, não o Gustavo.

Obrigado pela preferência, voltem sempre!

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