EDIÇÃO DIGITAL

Quarta-feira

5 de Agosto de 2020

Ivan Sartori

Desembargador aposentado, ex-presidente do Tribunal de Justiça, mestre em Direito da Saúde e professor de Direito Civil na Universidade Santa Cecília (Unisanta).

Drauzio e o caso Suzy

Reportagem do médico foi apresentada no Fantástico, no dia 1º de março

A matéria apresentada pelo dublê de repórter e médico Drauzio Varella, no Fantástico, dia 1º de março, se propunha a retratar as condições que a população trans enfrenta nos presídios do Brasil, com um recorte especial para o CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros, na capital Paulista, colhendo depoimentos de presos nessa condições e suas experiências no cárcere.

A reportagem, que tinha o objetivo de chamar a atenção do público para a realidade desse grupo específico de pessoas, causou grande comoção, predominantemente, pelo depoimento do preso Rafael Tadeu de Oliveira Santos, conhecido como Suzy.

A detenta relatou a ausência de visitas, que não aconteciam havia 8 anos, e a solidão que sentia pelo abandono social, o que seria uma pena ainda mais cruel do que a imposta para resgate de sua dívida com a sociedade.

Esse relato, aparentemente de forma espontânea, foi a imagem que viralizou e se tornou uma bandeira de resistência, colocando Suzy como porta voz dos transexuais que se encontram em situação análoga.

O retrato humanizado desse preso motivou campanhas nas redes sociais para que lhe enviassem cartas, endossadas pela própria Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (SAP), sucedendo que mais de 200 pessoas de boa fé escreveram, expondo endereços e informações pessoais; houve, ainda, uma vaquinha virtual que arrecadou quase R$ 9.000,00.

No entanto, uma semana depois, veio à tona o real motivo que levou Suzy a cumprir a pena de 36 anos e 8 anos de reclusão (na verdade, o máximo possível são 30 anos): estupro e assassinato de uma criança de 9 anos de idade, há exatamente 10 anos.

Assim, até o último domingo, a opinião pública teve uma reação empática com um criminoso cruel e desprezível, que ganhou um abraço afetuoso de Varella na frente das câmeras.

Em meu entendimento, esse gesto piegas era dispensável na frente das câmeras, o que, inegavelmente, contribuiu para o sucesso da matéria junto ao público. Na visão de Drauzio, Suzy, há oito anos “esquecida pela família”, merecia um gesto de amor do médico e o perdão da sociedade.

A omissão de Varela, acerca do crime cometido por Suzy, suscitou reações indignadas dos que se sentiram enganados em suas avaliações da matéria e traídos no sentimento de empatia inspirado pelo depoimento do autor de um crime tão hediondo, que fica até difícil de qualificar.

Causou frustração e descrédito a reposta do médico, já que Drauzio se defendeu na condição de médico, utilizando-se das prerrogativas baseadas no juramento

de Hipócrates, para se blindar das críticas, embora fazendo as vezes de jornalista. Veja a desfaçatez. Em sua nota, Varella diz que não pergunta aos detentos o que fizeram, porque não seria juiz.

Lógico que ele tem todo o direito de atender a quem bem entenda, já que possui o livre arbítrio de cuidar de qualquer pessoa, seja qual for sua condição pessoal ou social.

Porém, o público foi enganado, ludibriado pela irresponsabilidade de toda equipe, mormente o dublê de repórter.

Todos os responsáveis pela matéria, e principalmente o próprio Drauzio, agiram com desonestidade intelectual, ao tentarem induzir a coletividade de que Suzy estava arcando pelas consequências de seus atos somente por ser trans e não por ser o algoz de uma criança.

A “heroína da matéria”, na verdade, está sendo renegada por todos por conta de seus crimes hediondos, conforme a sentença, a qual cita que “o réu agiu com crueldade desmedida ao reiterar a conduta de abusar sexualmente de crianças e ao decidir praticar o homicídio como forma de se ver impune pela prática do estupro”.

A decisão editorial de omissão proposital de uma informação tão relevante altera substancialmente a interpretação dos fatos e presta um desserviço à própria população carcerária trans, que pode vir a ser estigmatizada por ter sido representada por um interlocutor que merece todo o desprezo possível, não por conta do preconceito, mas por ser a pessoa cruel que é.

A lição que fica é que não se pode fazer um recorte pessoal da realidade, motivada por crenças ideológicas, partidárias ou quaisquer outras razões. O caso em questão serviu a uma narrativa e não foi fiel aos fatos. Não podemos incentivar a inversão de valores, que idealiza o bandido e despreza a vítima. Acho que todos devem desculpas, no mínimo, à mãe do garoto assassinado cruelmente e à opinião pública. Infelizmente, dificilmente isso irá acontecer.

Aliás, os R$ 9.000,00 advindos da tal vaquinha deveriam ser revertidos para essa infeliz mulher, ainda que isso nem chegue perto do dano que sofreu.

Quanto ao médico Drauzio, é bom por as barbas de molho quando se torna “repórter”, cineasta ou coisa que o valha.

Tudo sobre:
 
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.