(Adobe Stock) Você está no carro, plataforma de música ligada, e começa a tocar uma música com batida envolvente, letra bem construída, refrão daqueles que grudam. Você canta junto, curte o som, mas nem imagina que aquilo que está ouvindo foi criado por uma inteligência artificial. Parece ficção científica, mas já é realidade e o mais curioso? Quase ninguém nota a diferença. Nos bastidores da indústria musical, a inteligência artificial vem revolucionando a forma de criar. Ela analisa milhões de músicas, entende o que emociona as pessoas, aprende padrões de composição e, a partir disso, gera faixas totalmente originais. Melodias, arranjos, vozes e letras são produzidos com base em uma imensa base de dados. Uma pesquisa recente da Deezer, feita com 9 mil pessoas em oito países, colocou músicas feitas por IA e por humanos lado a lado, sem identificar qual era qual. O resultado surpreendeu e mostrou que 97% dos participantes não conseguiram diferenciar qual música havia sido criada por humano sem apoio de IA e qual música havia sido criada com apoio da IA. Ou seja, a IA não está apenas compondo. Ela está se infiltrando no gosto popular, nos algoritmos de recomendação, nas playlists do dia a dia e ela pode decidir virar artista. Foi o que aconteceu com The Velvet Sundown, uma banda de inteligência artificial que está conquistando espaço de verdade. A banda se aventura no universo do country e seu maior sucesso até agora é a faixa “Dust on the Wind”, que já ultrapassou os 3 milhões de reproduções. Na descrição disponível nas plataformas de streaming, eles se apresentam assim: “The Velvet Sundown é um projeto musical sintético, com direção criativa humana, cujas músicas, performances e visuais são desenvolvidos com o apoio da inteligência artificial”. E a tendência é que isso se intensifique e artistas virtuais podem ser programados com personalidades, vozes únicas e estilos próprios. Para as gravadoras, é um sonho devido ao custo x benefício e para os fãs, é uma experiência diferente, mas cada vez mais comum. Esse movimento abre portas e também provoca dilemas…Será que o critério para uma boa canção vai se tornar simplesmente o quanto ela nos toca, independentemente de quem ou do que a criou? A inovação sempre andou de mãos dadas com a arte sonora e a IA seria apenas mais uma etapa desse processo. Mas é claro que nem tudo são aplausos. Há preocupações legítimas sobre autoria, direitos e remuneração. Quem deve ser creditado? Quem recebe pelos plays? Como garantir que a IA não esteja apenas copiando estilos humanos sem dar o devido reconhecimento? Essas discussões estão apenas começando e por outro lado, talvez estejamos tentando demais “decifrar” a origem da música, como se ela precisasse de carimbo de autenticidade para ser apreciada. E se, no fim das contas, o que realmente importa é o sentimento que ela desperta em quem ouve? Talvez a pergunta não seja mais “quem fez essa música?”, mas sim “como essa música me fez sentir?”. Você está pronto para deixar o preconceito de lado e apenas curtir o som, mesmo que ele venha com o apoio de uma IA? *Gabriela Morais é professora e especialista em IA e Tecnologia. gabriela@wmorais.com.br