(FReePik) Nunca olvidarei um grafite contornando um centro cultural na periferia de Lisboa com o inscrito: “Mais do que um espaço para cultivar o futuro, a biblioteca é um jardim para desfrutar o presente”. Um solar redondo, circundando um pomar interno com tudo que valha a pena chamar de eterno: vasta coleção de livros, contação de estórias, acesso grátis para pesquisa digital, saraus aos sábados, recitais de música e o sombreado de árvores frutíferas. Isso que chamamos biblioteca reinventou-se: nada de silêncio sepulcral, ainda que guarde atenção para os leitores. O mundo padece duma epidemia de déficit de atenção: o livro nunca foi tão necessário, e acervos precisam ganhar centralidade urbana. Sabe aquela beleza da colonização ibérica, da igrejinha com coreto na praça? Assim nossas bibliotecas pedem acessibilidade em todos os sentidos, do transporte ao uso. Sinto que, passadas décadas, Santos, com orçamento de mais de R\$ 5 bilhões, não conte com uma biblioteca verdadeira. Não um puxadinho, não um rés de chão mal ajambrado, mas uma biblioteca à altura da pátria dos Andradas e dos seus poetas. Um equipamento municipal linkado aos outros culturais e digitalizado, servindo de porto seguro para consulta, convivência, troca de informações, e para usar o jargão da moda, empoderamento intelectual. Intelectual, diga-se, não é grave nem pesado, a não ser aos apedeutas militantes da estultice. Não pense que a China chegou aonde merece por outra causa que não incentivo a bibliotecas. Lá ficam as mais modernas do planeta. Confio no compromisso do prefeito Rogério Santos, que inseriu em seu programa de governo, por nossa sugestão, esse pleito de toda a comunidade cultural e educacional desta terra. Não faltam iniciativas que sirvam de exemplo para essa luta de todos: as campanhas de livros da Pinacoteca Benedicto Calixto, as festas do livro do Fórum da Cidadania, o movimento Pró-Ler, da Unisanta, e, claro, a Casa das Culturas, catalisando a literatura santense. A biblioteca num prédio adequado vai centralizar o que o estupendo Leia Santos já promove de forma itinerante. Se existe legado duma gestão antenada com novos paradigmas de conhecimento, é a criação dum polo que reúna a tradição do livro com a digitalidade inclusiva. Vocês imaginam São Paulo sem a mítica Biblioteca Mário de Andrade? Ali, próximo ao Anhangabaú, todas as tribos, coletivos, criadores convergem como polo vivo do centro expandido. Que esta crônica sirva de manifesto a mover mentes e corações para essa causa premente!