(Imagem Ilustrativa/ FreePik) Cem anos atrás, Pixinguinha e Villa-Lobos eram sucesso em Paris! O popular e o erudito amigos para levar a cultura raiz aos franceses. Alguns anos antes, o compositor Darius Milhaud, fascinado com Pelo telefone, de Donga, criara peças musicais eternas como Saudades do Brasil, enquanto Paul Claudel, poeta de prestígio, irmão de Camille, escultora companheira de Rodin, se dividia entre Santos e o Rio recolhendo pérolas do samba que, pasmem!, ainda era caso de polícia no Brasil! Quem financiara o criador de Carinhoso e o autor das Bachianas? A Companhia Docas de Santos, dirigida com pulso por Arnaldo Guinle. O samba é mais que o samba e molejo no pé! O samba é atitude, poesia advinda dos terreiros, reflexo da sutileza das senzalas, em vencer pela beleza com o pulsar ritmado de sua resistência. Se você não sabe o que é o samba, não preciso explicar, mas é muito mais que ser bom da cabeça ou ter gingado no pé. O samba, como a poesia, é o que vai além de compra e venda, tem valor de alma, não se aprende na escola e muito menos se confunde com as regras do mercado. Aprendi sobre o samba com duas negras míticas nascidas no século 19: Euclídia e Lidioneta, sabedoras de toda magia das Áfricas e do poder telúrico da dança. E com dois santenses enciclopédicos: o crítico Tinhorão e o historiador J. Muniz. Batuqueiro, multiritmista, passista, mestre-sala, compositor, espírito encarnado da gloriosa X-9, J. Muniz, um erudito da brasilidade ecoando o samba de Tia Ciata e Heitor dos Prazeres. Reputo que, ao lado do mestre Hermínio Bello de Carvalho, o Marechal do Samba seja o detentor mais poderoso da ancestralidade do que seja samba vivo no País. Circunspecto como uma entidade, não confunde alegria com hilariedade: tem a disciplina dos nobres, como seu amigo Cartola. J. Muniz colocou Santos e suas escolas no mapa nacional, hospedou o gênio de As Rosas não Falam e Dona Zica, em lua de mel na Baixada. Jornalista com texto escorreito, Muniz alternou diálogo com a velha guarda de Ataulfo e com a bossa nova de Johnny Alf, sem nunca trocar Santos por nada! O mais santense dos alagoanos, se o Brasil tivesse o respeito ianque pelo jazz, seria professor em cátedra de samba como estratégia de afirmação da raça! Que alegria ter Muniz dando depoimento ao projeto Santos é uma História, na Casa das Culturas, hoje! E com a apresentação do mais visceral aficionado por samba e do legítimo carnaval que conheço: Geraldo Pierotti! Geraldo, que colocou a saga de Jorge Amado na passarela com o antológico enredo Os Pastores da Noite! Dueto de bambas celebrado em 2 de dezembro, o Dia do Samba, também na Casa das Culturas com lançamento de livro histórico de Jadir Muniz, com desenhos contando a trajetória de figuras lendárias do mais profundo samba, sem desvio e aviltamento do lirismo em forma de canção. Na biografia do pai, Jadir colheu depoimentos primorosos, como do jornalista maior Carlos Conde, definindo Muniz exemplo de civismo no sentido pleno de cidadania e zelo pelas tradições do povo em sua criatividade natural. Que relato do sambista, levando o jovem cronista a conhecer as fontes mais puras da santidade do samba pelos templos sambeiros do Morro do Salgueiro! Que disciplina no trato do ritmo, que ordem no afã de suas pesquisas! Saúdo-te, Muniz, elo não perdido com os ecos arcanos do que faz o Brasil mais Brasil, pelas notas do pandeiro.