(Alexsander Ferraz/ AT) “Habituei-me ao Guarujá, ou melhor: o Guarujá comigo...”. Eis o trecho de uma carta de Euclides da Cunha a Coelho Neto, de 7 de agosto de 1904. Euclides acabara de lançar a mais importante obra para a nacionalidade, nossa geografia, caráter, interpretação sociológica e retrato antropológico de repercussão internacional, Os Sertões. Coelho Neto, nosso prosador mais lido então. Euclides tinha no Guarujá um refúgio, um tonificante para o espírito exangue de militar, erudito e engenheiro. Em missiva ao filho Solon, discorre sobre o trabalho em Santos e o sonho em Guarujá: “Escrevo-te de Santos: onde estou em serviço, apesar de domingo. Estude sempre, meu filhinho! Quero te ver breve adiantado. Cultiva também o teu coração, porque ele vale mais do que a cabeça”. Solon seria morto numa emboscada policial aos 23 anos, nos confins da Amazônia. Euclides, em 1909, num confronto pelo amante de sua mulher, Anna, o futuro marechal Dilermando de Assis, que também mataria em legítima defesa seu outro varão, Euclides Filho, que tentara vingar a morte do pai em 1916, aos 22. O Guarujá sempre seria seu oásis para as neurastenias, os embates políticos, a construção do legado estudado nos bancos escolares ou ao influenciar intelectuais mundo afora, como o Prêmio Nobel Mário Vargas Llosa no romance A Guerra do Fim do Mundo. Em carta a Machado de Assis, ele se queixa da labuta inclemente na outra margem do estuário santense: “Desde que aqui cheguei, não tive um quarto de hora para me dedicar aos assuntos queridos, nem aos livros prediletos. Estou inteiramente embaraçado e preso numa rede... de esgotos”. Sim, ele foi nosso urbanista raiz. Eis que surgem sempre o recanto, o devaneio. Astúrias, Enseada, nomes que repete a Machado e Vicente de Carvalho: “Volto amanhã para Guarujá, já repleto de esperanças...”. Toda correspondência de Euclides perfaz uma década, entre 1894, antes da obra-prima, até 1908, quando prefacia Poemas e Canções, do nosso Poeta do Mar, e ele nunca trata Guarujá como distrito de Santos, status da Pérola do Atlântico até 1934. Foi o primeiro a dar-lhe personalidade. Euclides percorreu toda a Ilha de Santo Amaro, como percorreu o agreste baiano e as profundezas do Juruá e do Xingu. Num resgate do tempo, há 125 anos, defende a conservação dos fortes de São Felipe, diante de Bertioga, e o debruçado sobre o Góes. Euclides pugna a mesma luta que o coronel Elcio Secomandi comanda sem trégua, pela historiografia militar brasileira. O Forte da Barra bem pode ser patrimônio mundial por testemunha de meio milênio da civilização brasílica! Em 31 de agosto de 1904, conta de forma epistolar ao nosso maior crítico literário, José Veríssimo, sobre uma pescaria com Benedicto Calixto e o poeta Alberto Souza, na então Ilha dos Búzios, hoje a paradisíaca Ilha dos Arvoredos. Guarujá, seu outro sertão, o mar envolvendo a mais linda terra, um Guarujão!, de infinitos encantos quando ele abre Os Sertões: “Paisagens admiráveis abeiradas do mar até as raias do Litoral paulista, muro de arrimo sustentando as formações sedimentárias do interior. A terra sobranceia o oceano, dominante, do fastígio das escarpas”. Que sutileza geológica e sobrehumana na epopeia euclidiana! E saber que o mestre de Canudos matutava sua eternidade quando descia a noite num crepúsculo entre Pitangueiras e Tombo.