Editorial A Tribuna

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Vacina, política e ciência

O oportunismo de Putin escancarou os riscos da interferência política em produto essencialmente das ciências

Mesmo sob desconfiança pela rapidez com que foi desenvolvida, a vacina russa conseguiu atrair as atenções do Governo do Paraná e melhorar o ânimo de investidores da bolsa. O que preocupa é que o grupo que mais vê essa imunização com reservas é o científico.

O presidente Vladimir Putin anunciou com toda pompa que a primeira vacina contra a Covid-19 é de seu país e até já tem nome – Sputnik V, uma homenagem ao pioneirismo soviético na corrida espacial. O oportunismo de Putin escancarou os riscos da interferência política em um produto essencialmente das ciências. 

Entende-se que os políticos tenham tamanha preocupação com essa questão e é uma obrigação que assim seja. Afinal, em primeiro lugar é preciso salvar vidas e depois retomar a sociabilidade e as relações econômicas de forma segura. 

Entretanto, assusta o fato do governo russo queimar etapas de pesquisas para acelerar a produção, conforme apontaram fontes independentes ouvidas pela imprensa estrangeira em Moscou. 

De acordo com cientistas brasileiros, a vacina russa ainda estava entre as fases 1 e 2. Deveria ter evoluído até a 3, quando milhares de voluntários participam dos testes. O que espanta é que o ministro da Saúde da Rússia admitiu que apenas 38 pessoas foram imunizadas e que o próprio Putin garantiu que sua filha já se vacinou e que sim, que a vacina é eficaz. 

No Brasil se sabia que a corrida da vacina era travada em dois campos. O governador João Doria fechou acordo com a chinesa Sinovac Biotech para transferir tecnologia para o Instituto Butantã, enquanto o Ministério da Saúde, mais passivo, aguarda os estudos da AstraZeneca e a Universidade de Oxford, do Reino Unido. 

Curiosamente o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) surgiu como terceira frente ao se revelar parceiro da vacina russa. Contudo, o andamento do acordo, no final das contas, vai depender do aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que é federal. O presidente Jair Bolsonaro, ainda que de forma irônica, já disse que não tomaria dose de origem chinesa, mas, conhecido o seu fraco por teorias da conspiração, daria ele apoio político à imunização russa? Deve-se lembrar que a adesão do Paraná passou pelo governador Ratinho Júnior (PSD), um aliado político do Palácio do Planalto.

Enquanto a política atropela a ciência na corrida pela vacina, o temor é de que a imunização, seja ela de onde for, tenha uma baixa adesão da população quando começar a ser aplicada para valer ao redor do mundo. Já há pesquisas de opinião que indicam que alguns americanos pretendem não se imunizar, o que pode permitir que o vírus continue ativo. Pior ainda será se logo após a aplicação da vacina de Putin em 150 milhões de habitantes começarem a surgir efeitos indesejáveis ou surtos da própria Covid-19 em terras russas. Por isso, apesar da urgência sanitária, é recomendável não queimar etapas e ouvir os cientistas sempre. 

 

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