Editorial A Tribuna

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Sinal de alerta na indústria

O adeus da Ford escancara a ausência de um plano nacional da indústria ou mesmo de estímulo às empresas

A decisão da Ford de deixar de produzir no Brasil depois de um século não se deve apenas ao momento difícil da montadora ou mesmo à falta de subsídios ou inabilidade do governo. A desativação das três fábricas da empresa sinaliza uma difícil inserção brasileira nos novos conhecimentos tecnológicos que sacodem o segmento automobilístico mundial e o elevado custo de produzir no Brasil. Não fosse isso, a Ford não teria optado por manter sua operação na Argentina e que se deu essencialmente pela vantagem cambial (isso derruba seus custos e provavelmente vai exportar para o Brasil). A eliminação de 5 mil empregos de uma indústria de alto valor agregado preocupa pela cadeia que ela movimenta, desde autopeças, comércios locais, serviços e empregos de alta capacitação.

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Não há como dissociar da indústria automobilística seus movimentos para obter vantagens tributárias e de outros custos não só no Brasil, mas em qualquer lugar do mundo. Foi assim que as montadoras decidiram sair de Detroit para o interior americano ou investir na Polônia e República Tcheca. Ou, no caso brasileiro, ao trocarem São Paulo por Minas Gerais, Pernambuco, Bahia e Paraná. São benefícios que os governadores brasileiros oferecem não só de isenção de impostos, mas também cessão de terrenos, crédito a juros camaradas e salários mais baixos, pois são regiões menos industrializadas e de pouca experiência sindical, forma de reduzir pressões na folha. 

No Brasil, o subsídio é uma arma de sobrevivência para as empresas, considerando a elevada carga tributária, e qualquer ponto percentual a menos faz diferença no balanço no final do ano. Entretanto, não pode haver farra com grupos de bom trânsito em Brasília. Se forem concedidos subsídios, que sejam destinados a setores que geram grandes custos de importação, demandem muita mão de obra e resultem em saltos tecnológicos. Desde o fim do InovarAuto em 2017, discutiu-se longamente o Rota 2030, consumado com Michel Temer e renovado pelo atual governo. Tentou-se tornar o acordo uma ponte de ganho tecnológico, que é acelerar no País a introdução às tecnologias de conexão e automatização, de aumento da competição e proteção ao meio ambiente, mas o pano de fundo foi a isenção fiscal. Não há sinal contundente de que a indústria automobilística brasileira vá acelerar sua adaptação à economia de baixo carbono, nem o governo estimula movimentação mais ágil nesse sentido. 

O adeus da Ford é um banho de água fria em um momento de recuperação econômica, mas pelo menos escancara a ausência de um plano nacional da indústria ou mesmo de estímulo às empresas. Há muita conversa oportunista nas campanhas eleitorais, mas o que se vê na prática é um Estado que não só retira recursos do setor privado como sempre eleva os gastos e não responde com bons serviços. Assim, o produto nacional fica a cada ano mais caro que seus concorrentes.

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