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Quarta-feira

16 de Outubro de 2019

Editorial A Tribuna

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Sequestro no ônibus

Especialistas avaliam que foi correta a ação policial, mas caso não deve servir para que se generalize e defenda ações como essa como técnica a ser adotada no combate ao crime

Houve grande tensão durante a manhã da última terça-feira, quando 39 pessoas foram mantidas reféns no interior de um ônibus na Ponte Rio-Niterói. O sequestrador, Willian Augusto da Silva, de 20 anos, acabou morto na operação policial com seis tiros que foram disparados por um atirador do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). O episódio foi transmitido ao vivo pela televisão, e teve grande repercussão no País e no exterior.

Especialistas avaliam que foi correta a ação policial, que teria seguido de modo integral os protocolos estabelecidos. Havia ameaça efetiva aos reféns, e o perfil do sequestrador mostrava uma pessoa instável emocionalmente, com dificuldades de relacionamento e quadro de depressão, e suas atitudes indicavam que poderia agir de modo violento contra os reféns a qualquer momento. De posse de um galão de gasolina, ameaçava atear fogo no veículo, e chegou a jogar um coquetel molotov na direção dos agentes policiais.

O caso não deve servir, porém, para que se generalize e defenda ações como essa como técnica a ser adotada nas ações policiais de combate ao crime. A postura do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, com gestos efusivos quando chegou ao local, não foi adequada. Embora ele tenha depois justificado que comemorou a libertação dos reféns, o gesto repercutiu negativamente.

Suas declarações posteriores, de defesa de sua política de "abate" de pessoas que portam fuzis, são também problemáticas e questionáveis, principalmente diante do contexto da ação, que causou grande impacto emocional na população. Ele foi além e declarou que a situação de terror está acontecendo nas comunidades, e que a polícia deve ter liberdade para matar quem estiver com fuzis nas mãos, e que irá consultar o Supremo Tribunal Federal (STF) sobre quais seriam as possibilidades nas quais os policiais podem matar suspeitos de cometer um crime.

Não se deve usar o lamentável episódio para incentivar a ação violenta da polícia. Ela se justifica em casos extremos, mas não pode ser a tônica e a rotina do enfrentamento do crime. É preciso evitar que a violência se torne a marca registrada do Rio de Janeiro, proporcionando imagem muito negativa no exterior, com grandes prejuízos à cidade, ao estado e ao Brasil. 

Atualmente nota-se a escalada da repressão policial no Rio: segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), houve, no primeiro semestre deste ano, 881 mortes em ações policiais, contra 769 no mesmo período de 2018 e 580 em 2017. Não é dessa forma, como política exclusiva, que o combate ao crime e a violência irá avançar. O episódio do sequestro do ônibus na Ponte Rio-Niterói deve ser encarado com estratégia correta da polícia, mas isolada, e não deve servir nem ser utilizada para dar suporte a políticas de confronto na segurança pública. 

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