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Sexta-feira

19 de Julho de 2019

Editorial A Tribuna

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Saída de Levy do BNDES

Circunstâncias que precipitaram a demissão do ex-presidente do banco revelaram, mais uma vez, o viés ideológico que marca as decisões de Jair Bolsonaro

Nova crise ocorreu na equipe de governo do presidente Jair Bolsonaro. Logo após a saída do ministro da Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz, Bolsonaro fez críticas diretas a Joaquim Levy, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cobrando que fosse revertida a nomeação de Marcos Barbosa Pinto para a Diretoria de Mercado de Capitais do banco por ele ter trabalhado no governo do PT. O resultado foi o pedido de demissão imediato de ambos, Pinto e Levy, ocorrido no fim de semana.

Embora houvesse certo grau de insatisfação na equipe econômica com a atual gestão do BNDES, as circunstâncias que precipitaram a saída de Joaquim Levy revelaram, mais uma vez, o viés ideológico que marca as decisões do presidente. É consenso que Marcos Pinto é um quadro técnico, muito respeitado no mercado financeiro, não filiado ou alinhado ao PT, e cuja participação em governos anteriores não se deveu a indicações partidárias. Destaque-se que seu nome foi sondado por Levy antes mesmo da posse do novo governo, e que ele recebeu sinal verde da Casa Civil e de outros órgãos do governo para que fosse nomeado para o cargo.

Discordâncias e divergências são normais em qualquer equipe governamental. No caso do BNDES, as reclamações contra Levy vinham a respeito de duas questões, envolvendo a devolução de recursos do banco ao Tesouro – o ministro da Economia, Paulo Guedes, quer R$ 126 bilhões neste ano - e venda ações da carteira do BNDESpar. Na realidade, o banco já devolveu em 2019 R$ 60 bilhões (R$ 30 bilhões em março, outros R$ 30 bilhões em maio, como liquidação antecipada de empréstimos), e anunciava que iria atingir o valor solicitado pela União.

Há ainda a discussão sobre o papel e a função do BNDES. É razoável discutir seu tamanho – com 2,6 mil funcionários, teve reduzida sua carteira de empréstimos que variava entre R$ 150 bilhões para R$ 180 bilhões para algo em torno de R$ 70 bilhões anuais - e concentrar suas atividades em operações de infraestrutura e financiar pequenas e médias empresas. Destaque-se ainda que Levy vinha trabalhando em discussões internas sobre tais questões, trazendo o conselho de administração do BNDES para esse debate. 

As razões que precipitaram a saída de Joaquim Levy não se coadunam, entretanto, com projetos alternativos para o banco. Decorreram de preconceitos ideológicos, como ligar um técnico ao PT, de modo indevido, e criticar o ex-presidente por não “abrir a caixa preta” do BNDES, revelando operações feitas anteriormente, sem que nenhum processo fosse aberto contra ex-integrantes da instituição.

Melhor do que governar de olho no passado é redefinir o papel e a função do BNDES, de forma clara e transparente: é o que se espera agora, após mais uma crise desnecessária. 

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