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Quarta-feira

23 de Outubro de 2019

Editorial A Tribuna

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Rivais no acordo

Produtores franceses estão claramente contrários ao entendimento comercial entre Mercosul e União Europeia e já começaram a ir às ruas para protestar

O acordo de livre-comércio do Mercosul com a União Europeia (UE) é como a reforma da Previdência, em que muitos abrem mão de privilégios para o bem de todos. No caso do tratado, há o segmento dos vinhos no Brasil e Argentina e setores da indústria brasileira, assim como grupos numerosos de agricultores da Europa temerosos com o aumento da concorrência. Os produtores franceses estão claramente contrários ao entendimento comercial e já começaram a ir às ruas para protestar.

A França vive uma intensa luta política na direita fragmentada, mas com uma corrente extremista que não consegue assumir o controle do governo nem fazer composições majoritárias. Entretanto, esses radicais têm muito a incomodar. Contrários à globalização e ao que vem de fora, parecem se inspirar em algum lema do tipo “uma França grande de novo”.

O presidente Emmanuel Macron, um centro-direitista, felizmente é favorável ao comércio. Segundo ele, quem quer exportar precisa importar, uma lição não só para os agricultores franceses, porém para boa parte da economia brasileira, que cresceu fechada ao mercado externo e protegida contra as importações por diversos mecanismos. 

Definido o acordo, que ainda precisa da assinatura de todos os países dos dois blocos, haverá uma redução gradual de tarefas até zero nos primeiros quatro anos. É previsível que até lá as partes que se sintam prejudicadas pelo acordo tentem postergar o cronograma do tratado. 

Agricultores europeus dizem que competir com o Brasil é uma injustiça, porque o agronegócio brasileiro avança sobre áreas da Amazônia, que o uso de agrotóxicos é desenfreado e que os animais engordam à base de hormônios. Apesar dos desmentidos, os argumentos avessos ao Mercosul e bem difundidos na Europa persistem. Eles não colaram nas mesas de negociações, porque lá estavam profissionais bem instruídos e com acesso prioritário a informações técnicas, mas não se pode dizer o mesmo de políticos em busca de voto.

O que preocupa é que o discurso do Governo Bolsonaro para a Amazônia e o meio ambiente joga a favor dos adversários do agronegócio brasileiro. Ao mesmo tempo em que Brasília afirma que combate o desmatamento, o Planalto tenta rever legislação da área com pouca ou nenhuma discussão, questiona a atividade de ONGs ambientais sem apresentar dados consistentes e praticamente submeteu a fiscalização ambiental ao Ministério da Agricultura, tornando a atividade subordinada ao setor que ela deve monitorar. 

O pior resultado é dar munição para aqueles que afirmam que o agronegócio brasileiro cresce sustentado na destruição da Amazônia e do meio ambiente. Para um governo repleto de críticos da globalização, é fundamental montar uma equipe especializada para atuar no acompanhamento das tratativas do acordo Mercosul-União Europeia.

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