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29 de Março de 2020

Editorial A Tribuna

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Queda de apoio

Pesquisa mostra que os mais ricos e escolarizados, segmentos que votaram majoritariamente em Jair Bolsonaro, são os mais críticos ao seu desempenho no enfrentamento do coronavírus

Quando se analisa o resultado da recente pesquisa do Instituto Datafolha sobre a crise do coronavírus, a primeira impressão é que não houve alterações substanciais no apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Os números confirmariam quadro anterior, em que a população estava dividida em três blocos, um favorável a Bolsonaro, outro que considera suas ações regulares e um terceiro que o rejeita fortemente. 35% disseram que seu desempenho em relação ao surto de coronavírus é bom ou ótimo; 26% regular e 33% ruim e péssimo.

Não haveria assim mudança significativa, não se justificando afirmações de perda da popularidade presidencial. Quando se comparam, porém, as avaliações de Bolsonaro com a do Ministério da Saúde e com a dos governadores, a situação muda bastante. As autoridades federais de saúde, com o ministro Luiz Henrique Mandetta à frente, têm avaliação positiva de 55% dos pesquisados, e a média de apoio às atitudes dos governadores de todo o País registra praticamente o mesmo número: 54%.

São 20 pontos percentuais de diferença. Além disso, a pesquisa mostrou ainda que os mais ricos e escolarizados, segmentos que votaram majoritariamente em Bolsonaro, são os mais críticos ao seu desempenho no enfrentamento do problema. 15% dos eleitores do presidente disseram que se arrependeram de ter votado nele em 2018, e essa parcela sobe para 49% entre os que votaram em Bolsonaro, mas reprovam sua atuação na crise.

Não é, portanto, impressão vaga e subjetiva. As atitudes do presidente foram de minimizar o coronavírus (no final da semana passada, quando as ações de isolamento social já eram generalizadas, ele continuou a referir-se a ele como "gripezinha"), insistir que não há razão para "histeria", bem como de não exercer a necessária liderança no enfrentamento ao avanço da pandemia (contrariando recomendações do Ministério da Saúde quando cumprimentou dezenas de manifestantes na porta do Palácio da Alvorada).

Seus apoiadores continuem insistindo em culpar a China pelo problema, referindo-se à ditadura comunista nas redes sociais, o que é, no mínimo, inadequado no atual momento, e em difundir mensagens contra os meios de comunicação, considerando, em autêntico delírio, que há um complô entre partidos que chamam de "esquerda" (incluindo o PSDB), os presidentes da Câmara e do Senado, o Supremo Tribunal Federal e a grande mídia para desacreditar o presidente neste momento.

Na realidade, os governadores têm assumido a liderança. Pode haver alguns exageros, como o fechamento do Rio de Janeiro determinado pelo governador Wilson Witzel, mas há clara articulação entre eles e setores do governo federal, representados pelos ministros da Saúde e da Economia, Paulo Guedes. O presidente isola-se e perde credibilidade, e isso poderá ser fatal para seu governo. 

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